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sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Xingamento - Gregório Duvivier

 Puta, piranha, vadia, vagabunda, quenga, rameira, devassa, rapariga, biscate, piriguete. Quando um homem odeia uma mulher — e quando uma mulher odeia uma mulher também— a culpa é sempre da devassidão sexual. Outro dia um amigo, revoltado com o aumento do IOF, proferiu: "Brother, essa Dilma é uma piranha". Não sou fã da Dilma. Mas fiquei mal. Brother: a Dilma não é uma piranha. A Dilma tem muitos defeitos. Mas certamente nenhum deles diz respeito à sua intensa vida sexual. Não que eu saiba. E mesmo que ela fosse uma piranha. Isso é defeito? O fato dela ter dado pra meio Planalto faria dela uma pessoa pior?

Recentemente anunciaram que uma mulher seria presidenta de uma estatal. Todos os comentários da notícia versavam sobre sua aparência: "Essa eu comeria fácil" ou "Até que não é tão baranga assim". O primeiro comentário sobre uma mulher é sempre esse: feia. Bonita. Gorda. Gostosa. Comeria. Não comeria. Só que ela não perguntou, em momento nenhum, se alguém queria comê-la. Não era isso que estava em julgamento (ou melhor: não deveria ser). Tinham que ensinar na escola: 1. Nem toda mulher está oferecendo o corpo. 2. As que estão não são pessoas piores.

Baranga, tilanga, canhão, dragão, tribufu, jaburu, mocreia. Nenhum dos xingamentos estéticos tem equivalente masculino. Nunca vi ninguém dizendo que o Lula é feio: "O Lula foi um bom presidente, mas no segundo mandato embarangou." Percebam que ele é gordinho, tem nariz adunco e orelhas de abano. Se fosse mulher, tava frito. Mas é homem. Não nasceu pra ser atraente. Nasceu pra mandar. Ele é xingado. Mas de outras coisas.

Filho da puta, filho de rapariga, corno, chifrudo. Até quando a gente quer bater no homem, é na mulher que a gente bate. A maior ofensa que se pode fazer a um homem não é um ataque a ele, mas à mãe — filho da puta- ou à esposa — corno. Nos dois casos, ele sai ileso: calhou de ser filho ou de casar com uma mulher da vida. Hijo de puta, son of a bitch, fils de pute, hurensohn. O xingamento mais universal do mundo é o que diz: sua mãe vende o corpo. 1. Não vende. 2. E se vendesse? E a sua, que vende esquemas de pirâmide? Isso não é pior?

Pobres putas. Pobres filhos da puta. Eles não têm nada a ver com isso. Deixem as putas e suas famílias em paz. Deixem as barangas e os viados em paz. Vamos lembrar (ou pelo menos tentar lembrar) de bater na pessoa em questão: crápula, escroto, mau-caráter, babaca, ladrão, pilantra, machista, corrupto, fascista. A mulher nem sempre tem culpa.

https://m.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2014/01/1393513-xingamento.shtml 

quarta-feira, 15 de maio de 2024

O alimento

 A gratidão me salvou de mim mesma. 

Sentir o sabor do queijo devagarinho e o creck do pãozinho recém saído da torradeira. É um dos momentos altos do meu dia. O café com leite, morno na temperatura ideal que não me queima, é o líquido mais simples e precioso, disputando espaço no meu coração apenas com o bubble tea.

Quando você se dá conta de que come alimentos frescos, de que come aquilo que gosta, de que você pode inclusive escolher, entende o que é riqueza. Café da manhã, almoço, lanche, janta, tudo isso alimenta também a alma.

Miguel está sempre comendo pizza. E ele ama, parece um Tartaruga Ninja. Nunca vi alguém para gostar tanto de pizza na vida. 

A comida em Studio Ghibli, a comida em "O oceano no fim do caminho", a comida na minha família, na família dos meus amigos. A comida que o Rafa anseia fazer para receber os amigos na casinha que sonha ter. 


Recomendações:

Cooked

Tomando te, Chava Flores  

Chiki ori

Street food Asia/Buenos Aires

terça-feira, 12 de março de 2024

Senhor aparecido

 “Era uma vez um homem muito expressivo. Bastava apenas uma olhada para ele e seu rosto logo ficava gravado na memória. (...) o senhor aparecido gostava muito de si mesmo. Ele adorava sua aparência, seus traços tão expressivos e se olhava no espelho com muita satisfação. Não é de estranhar, portanto, que depois de ter comprado um supercelular com uma câmera do modelo mais recente, ele tenha passado a tirar selfies com imenso prazer”.

Assim começa a saga do senhor aparecido, personagem principal do livro da polonesa Olga Tokarczuk, recém-lançado aqui no Brasil. Classificado como infantojuvenil para efeito de mercado, “Um senhor notável”, na verdade, é um livro “para as infâncias” que habitam o ser humano, inclusive a etária. Fábula contemporânea, narrativa distópica, retrato bem-acabado da nossa relação com as mídias digitais. Todas estas definições cabem para esta obra.

Esse senhor aparecido notável é um retrato bastante vívido de cada um de nós, habitantes desse mundo surreal. Em busca de nos tornarmos mais vistos, amados, clicados, nos embrenhamos no exercício quase ininterrupto de postar a nossa imagem em busca de outros cliques. Assim, os retratos passam a nos representar e nos apagamos em busca do que queremos mostrar. Vale tudo para caber nos padrões estabelecidos pela indústria do imaginário, em que a representação tem mais valor do que a concretude física. De tanto buscarmos nos diferenciar para sermos vistos, nos tornamos monotonamente iguais.

 ALVES, J.C. O senhor aparecido e o que ele tem a ver conosco. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/>. Acesso em: 09 dez.2023.

domingo, 10 de março de 2024

Porque às vezes só escrevendo me entendo

"Pois o que o poeta consegue expressar com as imagens é a transposição poética da sua angústia pessoal de alheamento. (...) Na verdade, para o poeta angustiado todo poema é um desencanto, um produto desconsolador de ambições profundas mais ou menos definidas, de um balbucio existencial que se agita e urge, e que só a poesia do poema (não o poema como produto estético) pode, analogicamente, evocar e reconstruir."

CORTÁZAR, Julio. Para uma poética. In: Valise de cronópio. 2ª edição. Perspectiva: São Paulo, 2019.

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Desidrose

 É o nome dado às bolhinhas que nasceram e estouraram na palma da minha mão. Na internet diz que é estresse. Eu não duvido. Mas o que é estresse clinicamente? É excesso de adrenalina? Qual é a substância produzida pelo meu corpo quando meu cérebro está estressado? O estresse é uma agitação combinada com tristeza? 

A euforia também nos faz ficar agitados, quando estamos muito alegres. E não produz desidrose. Queria saber.

domingo, 6 de agosto de 2023

Inspirada pela minha professora de artes

 Gravando questões, trabalhando com material didático, descobri a obra "Isso não é uma maçã", que parece prima da "Isso não é um cachimbo".

 
Tentando explicar as alternativas e mostrar para o aluno que a arte inspirou o questionamento daquilo que é reproduzido, pensei sobre a minha realidade. 

Eu poderia tirar diversos prints de redes sociais e convenções e fazer críticas. Por exemplo, foto da família margarina e escrever "Esse não é o único tipo de família". Ou então foto de companhas de calcinha e manequins de shopping com "Isso não é um corpo". Ou fragmentos de vídeo de unboxing de lojas que ganham milhões com base em trabalho escravo com "Isso não é só um achadinho". Um desenho do logo do whatsapp com "Isso não é veículo jornalístico" ou algo do tipo.

Bom, gostei da ideia. Queria transformar as ideias em algo visual. Queria te agradecer por isso também, Bernadete.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

domingo, 30 de agosto de 2020

É menina!

 É menina 


É menina, que coisa mais fofa, parece com o pai, parece com a mãe, parece um joelho, upa, upa, não chora, isso é choro de fome, isso é choro de sono, isso é choro de chata, choro de menina, igualzinha à mãe, achou, sumiu, achou, não faz pirraça, coitada, tem que deixar chorar, vocês fazem tudo o que ela quer, isso vai crescer mimada, eu queria essa vida pra mim, dormir e mamar, aproveita enquanto ela ainda não engatinha, isso daí quando começa a andar é um inferno, daqui a pouco começa a falar, daí não para mais, ela precisa é de um irmão, foi só falar, olha só quem vai ganhar um irmãozinho, tomara que seja menino pra formar um casal, ela tá até mais quieta depois que ele nasceu, parece que ela cuida dele, esses dois vão ser inseparáveis, ela deve morrer de ciúmes, ele já nasceu falante, menino é outra coisa, desde que ele nasceu parece que ela cresceu, já tá uma menina, quando é que vai pra creche, ela não larga dessa boneca por nada, já podia ser mãe, já sabe escrever o nomezinho, quantos dedos têm aqui, qual é a sua princesa da Disney preferida, quem você prefere, o papai ou a mamãe, quem é o seu namoradinho, quem é o seu príncipe da Disney preferido, já se maquia dessa idade, é apaixonada pelo pai, cadê o Ken, daqui a pouco vira mocinha, eu te peguei no colo, só falta ficar mais alta que eu, finalmente largou a boneca, já tava na hora, agora deve tá pensando besteira, soube que virou mocinha, ganhou corpo, tenho uma dieta boa pra você, a dieta do ovo, a dieta do tipo sanguíneo, a dieta da água gelada, essa barriga só resolve com cinta, que corpão, essa menina é um perigo, vai ter que voltar antes de meia-noite, o seu irmão é diferente, menino é outra coisa, vai pela sombra, não sorri pro porteiro, não sorri pro pedreiro, quem é esse menino, se o seu pai descobrir, ele te mata, esse menino é filho de quem, cuidado que homem não presta, não pode dar confiança, não vai pra casa dele, homem gosta é de mulher difícil, tem que se dar valor, homem é tudo igual, segura esse homem, não fuxica, não mexe nas coisas dele, tem coisa que é melhor a gente não saber, não pergunta demais que ele te abandona, o que os olhos não veem o coração não sente, quando é que vão casar, ele tá te enrolando, morar junto é casar, quando é que vão ter filho, ele tá te enrolando, barriga pontuda deve ser menina, é menina. 


(Gregório Duvivier. Folha de S. Paulo, 16 set. 2015.)

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Pérolas, porcos e patetas por Bia Abramo

“Graças a Deus, nunca fui de ler livro.” A frase, definitiva, é de uma das ilustres celebridades criadas no laboratório do "BBB", um tal de Fernando. É má política ficar indignado com aquilo que já sabemos não ser digno de atenção, mas, ainda assim, por vezes a estupidez dá tais sustos na gente que é difícil ficar impassível.

Neste caso, o mais intrigante não é, evidentemente, o fato de o moço não ser de “ler livros”. A cultura escrita não goza lá de muito prestígio entre nós, brasileiros, falando de maneira bem genérica. Se consideramos o microcosmo do “BBB” — gente jovem, considerada bonita, com pendores exibicionistas, ambição de se tornar celebridade e propensa a ganhar dinheiro fácil —, o índice deve tender a quase zero.

O mais revelador é o alívio com que ele se expressa, como a dizer: “Graças a Deus não fui amaldiçoado com essa estranhíssima vontade, esse gosto bizarro, esse defeito de caráter”. Qual é, exatamente, a ameaça que se pensa haver nos livros, ficamos sem saber, mas o temor de pertencer ao esquisito grupo daqueles que “são de ler livro” fala por si só. Por outro lado, é nesses momentos de espontaneidade real que o “BBB” tem algum interesse. Embora aqueles que chegaram ao programa não sejam, a rigor, representativos de nada, nessas brechas escapa o que vai na cabeça dessas moças e rapazes, de certa forma parecidos com os que estão do lado de fora. O desprestígio do conhecimento letrado é marca funda da sociedade brasileira — e, quando é formulado com tanta veemência e clareza, é preciso prestar atenção.

Enquanto isso, na universidade de Aguinaldo Silva, o pau come. Na novela “Duas Caras”, a instituição de ensino é palco de uma luta renhida entre aqueles que “querem estudar” — para vencer na vida, não mais do que isso; estudar aqui tem um valor de troca muito claro — e o bando de baderneiros e oportunistas, identificados como “de esquerda”, que querem tumultuar o projeto “eficiente” do reitor, um ex-militante convertido ao ensino privado.

Todos estudam lá — as mulatas sestrosas da favela, as patricinhas do condomínio, a mulher adulta que volta à sala de aula. Só não se sabe, ao certo, o que se estuda — embora haja gente empunhando livros e cadernos, não há uma indicação sequer (nem nos diálogos, nem nas trajetórias dos personagens) de que, em uma universidade, ao contrário dos shoppings do ensino, deva se produzir conhecimento e que o conhecimento de verdade é transformador. Justamente o que deve temer o “brother” Fernando.

Folha de São Paulo, 3/2/2008

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

As estruturas narrativas

Fiquei sabendo que "a passagem de (...) da adolescência à virilidade é marcada quase unicamente pelo fato de ele começar a falar: "todos se espantavam de que, os dentes plantados nos lábios, (...) ousasse lhes falar de tão alto". Falar é assumir uma responsabilidade, eis porque é também correr um perigo."

Alegoria

A literatura é como um prédio com vários apartamentos. Os apartamentos são gêneros e cada um tem quartos onde vivem muitos filhos. E esses filhos brincam com os filhos dos apartamentos vizinhos.
De vez em quando temos novos moradores e casamentos. Separações. Mas esse nem é o problema! O problema é quando vem um fofoqueiro - sempre aqueles críticos - se meter a falar da vida de quem vive no grande prédio sem nunca ter sequer entrado nele.
Bom, de qualquer forma, estão todos vivos e passam bem, porque a literatura não existe para os críticos, mas eles dependem dela.

O que aprendi lendo TODOROV.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Amigurumi

Estava conversando com a Bruna um dia desses de fevereiro sobre o aniversário de dois aninhos da Catarina (que vai ser de gatinhos) quando tivemos a ideia de acrescentar detalhes feitos a mão a base de linha: amigurumis*. A princípio, tive receio porque eu sempre achei crochê a mais difícil das artes com linha. As peças são muito detalhadas, minha avó sempre dizia que eu tinha que aprender as correntinhas "que são a base de tudo".
Bruna me passou um vídeo "Amigurumi do Zero" de um canal que começou em 2015 (acho), chamado Two Bee. Quem falava era uma menina muito simpática, que tinha muita paciência e ensinava o passo a passo sem pressa. Ficou acordado que, se eu conseguisse fazer, e não me incomodasse, eu faria alguns gatinhos para o aniversário da Catarina. Comprei um novelo cinza (para retratar o Godric), uma agulha 2,5 mm e comecei.
Ainda me falta aprender muuuuuuuuuuuuita coisa, mas com o tempo, fui me inteirando sobre o assunto e já tenho até uma encomenda oficial: um elefantinho azul.

*O amigurumi é uma técnica de origem japonesa, por isso tem esse nome *.* Mas a técnica é utilizada por muitos países diferentes, tem receita em inglês, em russo, em mandarim...

Obs. Inventei de fazer 5 gatos brancos e 5 cinzas para o aniversário da pequena :3

domingo, 25 de março de 2018

Na teoria nos chamamos cidadãos

"de sua lógica explicativa, o Estado, na visão liberal, emergiria de um
contrato social. E para que este ocorresse, hierarquizavam duas modalidades –
ou estados – de vida dos homens: o “estado de natureza” ou o “estado civil”, sendo
este último a forma de vida humana mais “civilizada”e “progressista”, posto ter
como base o contrato social.

O “estado de natureza” – ainda que variasse sensivelmente entre os distintos
pensadores liberais do período – implicava num modo de vida “a-social”, onde os
homens viviam em permanente barbárie e guerra, obedecendo estritamente a
seus apetites individuais, seus desejos, seus instintos (Mendonça, 1998). Nesse
“estado”, o homem estava fadado ao próprio extermínio, pois as lutas frequen-
tes entre individualidades múltiplas levariam à destruição da própria espécie.

Tratava-se, assim, de um estado apolítico e nocivo, onde o convívio social sequer
se fazia possível. Se esta era uma das “leis” universais da conduta humana, algo
deveria ser feito para impedir a autodestruição dos homens.
E este “algo”, superada a interveniência divina, seria a “Lei”, derivada do
contrato social. Ou seja, um dado grupo de indivíduos decidiria, num dado mo-
mento, pôr fim a este estado – ou modo de vida – e, para tanto, todos eles de-
veriam abrir mão de seus direitos e prerrogativas individuais, em nome de um
outro elemento – o Soberano – tido por capaz de frear as consequências funestas
do “autogoverno” até então vigente. Essa era a origem do chamado “estado (ou
sociedade) civil”, sendo o termo derivado do latim civilitas – civilização – ou mes-
mo civitas – cidadão."


Mas na prática ainda me sinto na barbárie.


domingo, 22 de outubro de 2017

Boceto

La sinceridad es comunicativa.

La vida no se recompone. Se deja contemplar y eso es todo. La imaginación poética no puede ser otra cosa que una visión más completa de la realidad. Si los personajes que el poeta crea nos dan la impresión de la vida, es porque son el poeta mismo, el poeta multiplicado, el poeta ahondado dentro de sí mismo en un esfuerzo de observación interna tan poderoso que sorprende lo virtual en lo real y vuelve a tomar, para hacer una obra completa, lo que la Naturaleza le dejó abocetado o como simple proyecto.

Henri Bergson, La risa.

sábado, 23 de setembro de 2017

Historias de cronopios y famas

CONSERVACIÓN DE LOS RECUERDOS

Los famas para conservar sus recuerdos proceden a embalsamarlos en la siguiente forma: Luego de fijado el recuerdo con pelos y señales, lo envuelven de pies a cabeza en una sábana negra y lo colocan parado contra la pared de la sala, con un cartelito que dice: «Excursión a Quilmes», o: «Frank Sinatra».
Los cronopios, en cambio, esos seres desordenados y tibios, dejan los recuerdos sueltos por la casa, entre alegres gritos, y ellos andan por el medio y cuando pasa corriendo uno, lo acarician con suavidad y le dicen: «No vayas a lastimarte», y también: «Cuidado con los escalones.» Es por eso que las casas de los famas son ordenadas y silenciosas, mientras en las de los cronopios hay gran bulla y puertas que golpean. Los vecinos se quejan siempre de los cronopios, y los famas mueven la cabeza comprensivamente y van a ver si las etiquetas están todas en su sitio.

Julio Cortázar, El Cronopio Mayor.

terça-feira, 4 de abril de 2017

O amor depois do amor

Virá o tempo
quando, com euforia,
você vai saudar a si mesmo chegando
à sua porta, diante do seu espelho,
e sorrindo um dará ao outro boas-vindas,
e dirá: sente-se aqui. Coma.
Você amará novamente o estranho que era você.
Ofereça vinho. E pão. Devolva o seu coração
para si mesmo, para o estranho que te amou
por toda sua vida, a quem você ignorou
mas que te conhece de cor.
Recolha as cartas de amor na estante,
as fotografias, as anotações de angústia,
descole sua imagem do espelho.
Sente-se. Celebre sua vida.

Derek Walcott.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Didática de português 1

Felicidade clandestina - Clarice Lispector

Clarice Lispector
O Primeiro Beijo
São Paulo, Ed. Ática, 1996

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

SACANAGEM

 Martha Medeiros

Vou falar de amor, mas não vou falar sobre ursinhos de pelúcia nem sobre bombons. O momento é ideal para falar de sacanagem.
Se dei a impressão de que o assunto será ménages-à-trois, sexo selvagem e práticas perversas, sinto muito desiludi-los. Pretendo, sim, falar das sacanagens que fizeram com a gente.
Fizeram a gente acreditar que o amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes do 30 anos. Não contaram pra nós que o amor não é racionado nem chega com hora marcada.
Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, só é mais rápido.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”, duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria que poderemos ter uma relação saudável.
Fizeram a gente acreditar que o casamento era obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.
Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre deve haver um chinelo velho para um pé torto. Ninguém nos disse que chinelos velhos também têm seu valor, já que não nos machucam, e que existem mais cabeças tortas do que pés.
Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que poderíamos tentar outras alternativas menos convencionais.
Sexo não é sacanagem. Sexo é uma coisa natural, simples – só é ruim quando feito sem vontade.
Sacanagem é outra coisa. É nos condicionarem a um amor cheio de regras e princípios, sem ter o direito à leveza e ao prazer que nos proporcionam as coisas escolhidas por nós mesmos.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Enquanto eu estudo

Verbos de ligação são aqueles que não indicam ação. Fazem ligação entre 2 termos: sujeito e predicado. Até aí tudo bem, né?
Para Mateus et alii (que é uma mulher, acredite) os verbos podem ser: predicadores, de ligação, suporte e semi auxiliar.
Os predicadores são aqueles que podem ou não exigir argumentos (e suas condições semânticas e morfossintáticas, ou seja, o sentido que eu chamo de "ideal" do verbo, exemplo: verbo ligar nas frases "Eu liguei para o celular de Karen" e "Eu não liguei para o que a fulana disse". Na primeira frase seria o sentido ideal e na segunda um sentido que foi acrescentado com o tempo ao verbo - algo como se importar. Mas isso tudo é da minha cabeça, tá? Mateus el alii não falou nada disso, ela se refere a isso com a nomenclatura "sentido pleno", "sentido não-pleno")
Os de ligação são aqueles que operam num predicado complexo e se conectam SEMPRE a um elemento não verbal. (que seria o predicativo do sujeito). Exemplo: Mariana é estudiosa. (olha que mentira) "Estudiosa" é um adjetivo que se relaciona com o nome (que está exercendo papel de sujeito > Mariana)
Então eu parei e pensei

"Desculpe estou um pouco atrasado
Mas espero que ainda dê tempo
De dizer que andei
Errado e eu entendo

As suas queixas tão justificáveis
e a falta que eu fiz nessa semana
coisas que pareceriam óbvias
até pra uma criança

Por onde andei?
enquanto você me procurava (...)"

Porra, o primeiro andei é muito diferente do segundo. Ou será que não? O cara não pode ter caminhado todo torto (errado) ou esse verbo está apenas ligando as informações "dizer" e "errado"?
No segundo é óbvio, pela frase seguinte pescamos a ideia de direção, andar com sentido pleno.
Essa foi a primeira dúvida.

Prosseguindo com os estudos...

Os verbos suporte também se ligam com elementos não verbais, usando verbos predicadores. Eles constroem frases enfáticas, que poderiam ser substituídas por outras menores e de mesmo significado (perdendo apenas o valor semântico do esforço)
Exemplo: Eu fiz ver a saída X Eu mostrei a saída    
                Eles fizeram menção a "Curtindo a Vida Adoidado" nos créditos de Deadpool X Mencionaram "Curtindo a Vida Adoidado" nos créditos de Deadpool
                O SBT não dá créditos as versões originais mexicanas que copiam descaradamente em versões brasileiras X O SBT não credita (...)
Os verbos semi auxiliares se unem se unem aos predicadores ou a estruturas complexas para acrescentarem algum tipo de significado extra (que não pode ser reconstruído através de outra forma mais simples)
Ex: vai estudar (sentido de futuro)
       pode ser feliz (possibilidade)

Outro problema:
"Queria saber voar 
pra lá do alto poder ver você
te ver sorrir, te ver sonhar
coisas lindas quero te dizer

se um anjo encontrar
eu vou pedir pra ele te proteger
oh estrela que me faz enxergar
que a vida é linda de viver."

Fudeu. Que a professora não conheça essa música.

sábado, 11 de junho de 2016

Livro de pedra


O problema de não se importar com o curso da história é ter a obrigação de caminhar sempre olhando para frente que é feito de nada. O caminho entre o passado, não de ruínas, mas de demolições, e o futuro vazio é um pouco perturbador. Se pendo para trás, não há onde apoiar, se pendo para frente caio num profundo poço de especulações. Uma professora incrível falou - por mais de uma aula - dos Livros de Pedra que apesar de parecerem fortes e indestrutíveis são mais frágeis que uma folha de papel. Querida, Luciana, eu já escrevi mais cartas do que plantei árvores, estou sentindo falta das pedras históricas.