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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A glória dos debates da minha geração

Ser valorizada é imperativo

Ser valorizada é básico

Ser valorizada é, pra mim, pré-requisito pra eu ficar

E, companheira, 

Torço para que você pense igual


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O toque do algodão

Quando a minha vida está sob os efeitos da lente do amor

A cama é mais gostosa, os fios de algodão da fronha são mais sentidos

e delicadamente me desperto de um sonho 

em que eu repousava a minha mão sobre o seu corpo

enquanto você acordava 

Foi uma pena te deixar naquele plano

Fazia tempo que eu não sentia dessa maneira

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O último leitor

Entre tantas cabeças baixadas

Entre tantas luzes adaptáveis

Entre tantos sons e ruídos

piscadelas de lubrificação da córnea

Há um par de olhos que brilha

Um par de olhos que chora

Um par de olhos que sente

Um par de olhos que abre, arregala, fecha e corre


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O meu Nirvana, Augusto dos Anjos

No alheamento da obscura forma humana,

De que, pensando, me desencarcero,

Foi que eu, num grito de emoção, sincero

Encontrei, afinal, o meu nirvana!


Nessa manumissão schopenhauereana,

Onde a vida do humano aspecto fero

Se desarraiga, eu, feito força, impero

Na imanência da ideia soberana!


Destruída a sensação que oriunda fora

Do tato – ínfima antena aferidora

Destas tegumentárias mãos plebeias –


Gozo o prazer, que os anos não carcomem,

De haver trocado a minha forma de homem

Pela imortalidade das ideias

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Visto por último há alguns segundos

Estamos todos conectados

sem cabo, sem fio, só dados

Estamos todos conectados

arrobas, em live, online 

Estamos todos 


Estamos todos desconectados

sem tempo, sem feeling, só fatos

Estamos todos desconectados

exaustos, doentes, solitários

Estamos todos


check duplo e azul

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

A era da impermanência

Como criar raízes em terras griladas?

numa verdade enlameada?

na palavra que não habita a memória?


Como baixar as âncoras 

num lago raso de oásis?

em ilhas privativas de um particular que nunca vi? 

Num mar que não tem cabelo?


Como sentir nesse mundo sem sentido?

nesse planeta temporário

nesse solo escravizado

nesse não-lugar que renasce a cada dia


E o amor

Ah, o amor é só uma ideia... 

A incompatibilidade com esse mundo vai me deixar doente. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Sophia de Melo Breyner

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Poema de sete faces e outro, que é apenas da minha

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Mariana! ser trouxa na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de poder.
A tarde talvez fosse azul,
houvesse mais espaço para melancolia.

O metrô passa cheio de corpos:
corpos cansados, exauridos, amassados.
Para que tanta pressa, meu Deus? pergunta meu coração.
E meus olhos, magoados,
não deixam escapar nada.

O homem atrás do bigode
é machista, inseguro, e carente.
Quase não pensa.
Tem muitos, muitos "amigos"
o homem atrás do time e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era romântica.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Natasha
seria uma diva, mas não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas essa skol beats
botam a gente comovido como o diabo.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Dramática como só uma segunda-feira consegue ser

Sonho

De suspirar em vão já fatigado,

Dando trégua a meus males eu dormia;

Eis que junto de mim sonhei que via

Da Morte o gesto lívido, e mirrado:

 

Curva fouce no punho descarnado

Sustentava a cruel, e me dizia:

“Eu venho terminar tua agonia;

Morre, não peneis mais, oh desgraçado!”

 

Quis ferir-me, e de Amor foi atalhada,

Que armado de cruentos passadores

Aparece, e lhe diz com voz irada:

 

“Emprega noutro objeto os teus rigores;

Que esta vida infeliz está guardada

Para vítima só de meus furores.”

 

Manuel Maria Barbosa du Bocage. Soneto e outros poemas, 1994.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Batata Quente

Se eu te entregasse agora o meu amor
aceso como ele está,
como ele está, pesado,
você o trocaria rapidamente de mão,
você o guardaria um pouco na esquerda,
um pouco na direita,
por quanto tempo antes de o passar adiante?

Ana Martins Marques

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Oi, junho

Seja bem-vindo, vamos tomar um café?  

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

BILAC, O. Ao coração que sofre. In: Antologia Poética. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1997.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Sentido

Eu quero mais é a dor de ser gente 

e esse medo macabro de já não o ser.


Quero a angústia de quem sente,

se ressente por sentir,

mas se dói dos insensíveis.


RIBEIRO, Nara. Sentido.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Primeiras impressões de apresentações em meio acadêmico resumido numa poesia (mas depois fica tudo bem)

 Nunca conheci quem tivesse levado porrada. 

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, 
Indesculpavelmente sujo, 
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, 
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, 
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das 
etiquetas, 
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, 
  

[...] 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo 
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, 
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana 
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; 
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia! 
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam. 
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? 
Ó príncipes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses! 
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

[...]  

 
Eu, que venho sido vil, literalmente vil, 
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

 

CAMPOS, A. Poema em linha reta. Disponível em: <http://arquivopessoa.net/>. Acesso em: 16 maio 2024 

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Espólios 1

Senti o cheiro do verão no seu cangote, o cheiro do frescor, do café com pão de que me alimentaria todos os dias com a mesma satisfação, de manhãzinha, à tarde ao por do sol e à noite, na ceia. 

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Poema aos homens do nosso tempo

Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.

Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.

O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.

E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.


HILST, H. In: Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão. São Paulo: Companhia das letras, 2018.

terça-feira, 9 de abril de 2024

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama

 Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,  

a que não se recusa a esse final convite,  

em máquinas de adeus, sem tentação de volta.  

 

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza.  

Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:  

já de horizontes libertada, mas sozinha.  

 

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,  

dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?  

Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.  

 

Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas 

vão as medidas que separam os abraços.  

Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina: 

 

“Agora és livre, se ainda recordas”.  

 

MEIRELES, C. [Eu sou essa pessoa a quem o vento chama]. In.: Solombra. São Paulo: Global Editora, 2013

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Casimiro de Abreu

 Amor e medo 

 II  Ai! se eu te visse no calor da sesta,  A mão tremente no calor das tuas,  Amarrotado o teu vestido branco,  Soltos cabelos nas espáduas nuas!...  Ai! se eu te visse, Madalena pura,  Sobre o veludo reclinada a meio,  Olhos cerrados na volúpia doce,  Os braços frouxos, palpitante o seio!...  Ai! se eu te visse em languidez sublime,  Na face as rosas virginais do pejo,  Trêmula a fala a protestar baixinho...  Vermelha a boca, soluçando um beijo!...  Diz: que seria da pureza d’anjo, Das vestes alvas, do cantor das asas?  Tu te queimaras, a pisar descalça,  Criança louca, sobre um chão de brasas!  No fogo vivo eu me abrasara inteiro!  Ébrio e sedento na fugaz vertigem.  Vil, machucara com meu dedo impuro  As pobres flores da grinalda virgem!  Vampiro infame, eu sorveria em beijos  Toda a inocência que teu lábio encerra,  E tu serias no lascivo abraço  Anjo enlodado nos pauis da terra.  Depois... desperta no febril delírio,  Olhos pisados como um vão lamento,  Tu perguntaras: qu’é da minha c’roa?...  Eu te diria: desfolhou - a o vento!...                      ________  Oh! não me chames coração de gelo!  Bem vês: traí-me no fatal segredo.  Se de ti fujo é que te adoro e muito,  És bela eu moço; tens amor, eu medo!... 

ABREU, C. Amor e Medo In: Poesias Completas de Casimiro de Abreu. Rio de Janeiro: Ediouro, 1994.,