sexta-feira, 8 de maio de 2026

Palavras da Gina

A enfermeira entrou com os remédios na luva. Ela se sentia muito esperta por não entrar no quarto da Gina com um copinho plástico de café, afinal, até um objeto inocente pode se transformar em arma na mão de uma pessoa perturbada. A mulher estava empoleirada na janela com um olhar atento, concentrado. 
- Está olhando a árvore de novo? - perguntou a enfermeira. 
- Quem foi esse que chegou agora? Mais um Napoleão? - disse apontando para o vidro em direção ao jardim.
Uma pessoa caminhava pelo jardim de cabeça baixa, um paciente novo. 
- Espera, não fala. Com essa postura não pode ser um Napoleão. Olhando bem... Me lembra você. 
- A mim? 
- É, com essa carinha de ex-funcionário do mês. - Gina sorriu pra enfermeira - Mas vou deixar que você se sinta especial enquanto pode. Você ainda acredita nisso, né? 
As feições da enfermeira endureceram. Maluca, apenas uma maluca que não está medicada. Fazer aquele bicho engolir o remédio, sair dali e pronto.
 

terça-feira, 5 de maio de 2026

Só por hoje

Só por hoje eu não vou pensar no meu trabalho de forma negativa nem criticar toda e qualquer linha que eu escreva fora dos meus padrões imaginários e inalcançáveis.

Só por hoje eu não vou acreditar em tudo que meu cérebro doente imagina. 

Só por hoje eu vou diminuir o número de estímulos para que minha cabeça, minha criatividade, minha sanidade se mantenha. Vou trabalhar direitinho, na medida do que eles merecem de mim, e em seguida guardarei a minha essência vital feminina e maravilhosa para aquilo que importa, para aquilo que realmente interessa.

Só por hoje não vou me arrepender de colocar limites e mostrar ao outro que comigo as pessoas não podem falar de qualquer maneira, que não se consegue um favor com piadinhas e deboches. Não sou esponja, não sou psicóloga.

Só por hoje eu vou fazer um chá à tarde e bebê-lo morno, sentindo o gosto do mato, me alimentando da esperança de renascimento que vem da terra e entra no meu corpo. 

Só por hoje vou me cuidar pra que amanhã seja um dia bom.  

 

Experiência de quase esquizofrenia

Sinto que preciso escrever muito sobre isso. Muito. Já escrevi e ainda não foi o bastante. Escrever para organizar, para que o universo organizado das palavras me ajudem a organizar a mim mesma, como diria Candido, como dia Bartolomeu Campos de Queiroz.

Desassociei. 

Eu-lírico, livre arbítrio, tudo isso ganhou corpo depois dessa situação. Tudo isso e também o conto do Edgar Alan Poe do corvo que diz Nevermore, nevermore. Vou tatuar esse corvo. 

Palavras da Gina

A morte é sempre a primeira opção, depois vem a diplomacia.

Ah, não me venha com essa, esse discurso eloquente. Fala difícil, usa palavra bonita, faz citação de livro, capítulo, ano, página, abre aspas, fecha aspas. - Ela gesticula no ar movimentando os dedos em movimentos iguais - Mas nada disso vale, nada... 

As lágrimas brotam dos olhos castanhos da moça. - Nada disso vale, porque são palavras vazias. Porque ninguém se importa de verdade com a árvore. 

Você e eu sabemos que o seu deus se chama dinheiro.


terça-feira, 14 de abril de 2026

Esse cabelo

Quando eu era criança perguntavam bastante se eu era adotada ("Ela é sua?"), porque a minha mãe e meu irmão são brancos. Quando eu estava de bikini, um familiar dizia, brincando, que a minha bunda era preta. Minha mãe sempre enfatizou que queria cabelo cacheado como o meu, mas sempre alisou o dela. Um namorado meu disse que não gostava de cabelo cacheado, porque "parecia sujo" e outro disse que tinha preferência por mulheres brancas, porque "pareciam mais ingênuas". 

No dia que o meu avô português faleceu, meu tio loiro de olhos azuis mostrou minha foto criança e descabelada para a família dizendo "olha que coisinha". Eu não gostei do tom que ele usou, a gente sabe quando não é um comentário amável. Passei 19 anos alisando o cabelo por acreditar verdadeiramente que o cabelo liso era mais prático e mais bonito que esse que nasceu comigo.

Na escola de freira que eu estudei, de todas as cinco turmas do ensino médio, tinha um aluno negro. Na faculdade pública pra qual eu fui, os alunos negros fizeram um grupo pra conversar, pra se unir. Uma amiga minha foi e não gostou muito, porque a julgaram já que o namorado dela era branco. Pra ela e pra muita gente eu sou branca, pra muito branco eu não sou branca. Quando a minha sobrinha nasceu e eu passeava com ela bebezinha numa área comercial do meu bairro, uma mulher fez algum comentário sobre a beleza da Catarina e complementou "Ah, mas você não é a mãe né? Essa pele..." Catarina é branca.

Depois de cortar todo o liso, passei duas semanas em crise. Eu precisei passar muito tempo olhando meu próprio reflexo pra entender que era eu, que eu não parecia uma tia velha e que continuava sendo uma mulher bonita e atraente. Isso deve ter um mês mais ou menos. Descobri que meu cabelo só define os cachos se eu passo creme e faço mil procedimentos. Meu cabelo é indefinido igual a mim.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Declaração de amor número 578 ao meu curso

 A Letras vai de encontro ao oposto das novas regras desse mundo. Ela pede calma, silêncio, tempo. Ela quer que você pense muito, que você vá além, além dos significados, do convencional, do lado de lá da fronteira das palavras. Colocando o pé, a perna, mergulhando de cabeça na imaginação, na subjetividade, na interioridade, na coletividade. 

A Letras pede que você escute com afinco, ela exige sensibilidade, interpretação. Diálogo. Afinal, os que falam sozinhos poderiam ficar em silêncio, absortos em si. 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Querido blog,

Tomei quase uma cartela inteira do remédio. Eu me sinto bem melhor, estava num estado lastimável. Nos primeiros dias senti muito enjôo, muito mesmo. Agora não mais. E a minha percepção do tempo mudou, o que já era de se esperar porque eu estava com muita ansiedade. Nos dias sem medicação eu sentia que o tempo passava muito rápido, muito mesmo. Agora não, parece normal, parece dentro do tempo que o tempo era pra ser, não acelerado, não desacelerado. 

Deve ter um mês que eu parei de jogar, desde então nunca mais dormi 1h da manhã. Como eu conseguia? Eu já vou deitar onze e pouca e tenho sono ao longo do dia... Os pensamentos continuam vindo em um volume grande, às vezes não consigo ler, fazer artesanato ou tomar decisões. 

Que sono. Não sinto meu chakra fluindo. Às vezes eu só queria dormir, comer e ficar deitada por dias e dias, em silêncio. Dias e dias de frescor, sono e comida boa. 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Ser adulto

 Ser adulto em 2026 é perceber que você está sorrindo novamente e se encantando com o papel de parede do computador "porque parece uma casinha de fada". Ser adulto em 2026 é também ficar na dúvida se essa alegria e percepção só vieram a sua mente porque o antidepressivo está fazendo efeito. 

Mito da caverna de Platão versão 2026

As pessoas, enquanto dependentes de telas, estão numa espécie de caverna novamente? 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Ainda puta com copywrinting

Se o comediante modifica a mensagem para conseguir uma reação do público, seja ela positiva ou negativa, o vendedor subverte a mensagem para influenciar, para enganar o público.

Pobre linguagem, sempre dependente da sorte de quem usa. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

A diferença entre o veneno e o remédio é a dosagem

 É muito curioso como ditados populares (ou provérbios) ressoam depois de anos e anos silenciados no fundo da mente. As pessoas compreendiam, interpretavam metáforas, analogias, e repassavam umas para as outras de maneira oral. Mas elas faziam esse movimento sem explicar esses nomes técnicos da gramática. 

Se essas frases chegaram até mim depois de tantos anos, não é lógico que tenha sido obra do acaso. Essas frases comunicam verdades que se aplicam à realidade. Quem não caça com cão, caça com gato. Da-se um jeito para que a caça se realize, mesmo que a ajuda não seja aquela que foi padronizada pra isso. Mais vale um pássaro na mão do que dois voando. Essa toca no assunto do olho grande, né? De que adianta ser ambicioso sem garantias? Hm... Cabeça vazia oficina do diabo. Essa é muito boa. Não é que a gente tenha que se matar de trabalhar, mas não ter algo com o que se ocupar pode resultar em grandes problemas. Eu associo esse diabo logo a pensamentos intrusivos, destrutivos mesmo.

A frase que coloquei no título, segundo o Google, é atribuída a um médico, mas se caiu na boca do povo, não é provérbio? Veneno e remédio nessa altura do campeonato já são palavras como o cão, o gato, o pássaro e até o diabo. 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Colega do mestrado

Cursei uma matéria de literatura portuguesa no mestrado. Nunca tinha ouvido falar da Revolução dos Cravos até então. Nesse curso havia muitos especialistas em literatura portuguesa; uma moça formada em Letras e Filosofia tornou sua tese de doutorado sobre Saramago em livro e deu uma palestra pra nós. Todo mundo estava mergulhado com snorkel nas profundidades das metáforas, dos detalhes, e eu estava navegando com meu barquinho de papel, preocupada com um vento ventania chamado "trabalho final" que estava logo ali. 

Eu chegava bem cedo pra aula e aproveitava para conversar com uma colega de classe. Ela morava em Teresópolis, pegava um ônibus de madrugada, assistia apenas àquela aula e retornava pra casa. O dia inteiro dela praticamente girava em torno daqueles 180 minutos. Ela passava uma vibe de quem morava perto das árvores, porque falava das trilhas e do mountain bike que praticava com o marido. Ela era muito centrada, contida e se vestia com sobriedade. Falava com propriedade, muito discreta. Ela estava no doutorado, se não me engano. 

Um belo dia ela sumiu. Quando as faltas dela acumularam, parte da turma pensou em muitas coisas, que o gasto do ônibus ficou pesado, que essa rotina estava difícil, que ela entrou em algum acordo com a professora. Pensamos muita coisa, mas nunca que ela retornaria mega loira e de cabelo desfiado, radiante, dizendo que tinha fugido de casa com uma mochila e estava morando com um ex namorado da época da escola.

O que leva uma mulher a fugir da própria casa com uma mochila? A liberdade é mesmo muito cara. 

segunda-feira, 2 de março de 2026

Tríade da arte anônima, daquilo que Eles chamam de "naif"

Falta energia para lutar com as armas do conhecimento, porque para se obter conhecimento é necessário um contexto favorável. Se lutamos com as armas da violência, somos bárbaros. Falta moeda para lutar com as armas da influência. Sobrou a arte, oculta, opaca, sem arremate, sem a pretensão de ser arte porque falta conhecimento, influência e moeda. Como, então, lutar?
No silêncio, utilizando de tripê a criatividade, a sorte e a mensagem.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Inteligência artificial

Éramos seis. Estávamos num lugar branco, com corredores, sem móveis. Era muito comercial, muito laboratorial, aquilo que virá depois do contemporâneo, o futuro depois do que achamos que seria o futurismo. Trabalhávamos apenas com as nossas mentes, o que pensávamos era transformado em dados e contribuía para a pesquisa científica. Na sala circular aconteciam as reuniões de debates mentais. 

Estávamos tentando conceber algo grande, uma inteligência superior, a partir da nossa. Essa tarefa era extremamente difícil e cada vez que falhávamos, um de nós desaparecia e então outro surgia no lugar. Eu não sei o motivo, mas eu parecia ter mais medo de desaparecer que os outros. Quando isso acontecia, os pais, que eram mais velhos, sábios e estavam no comando, mandavam um jovem novo. Eles não eram nossos pais de verdade, mas os chamávamos assim. Eles dependiam de nós, eles formavam a equipe, esse era o trabalho deles; criar a cabeça humana era o nosso. 

Nós, os seis, nos reunimos na sala circular novamente. No fim da tentativa, uma voz imponente, tomada de um ódio elegante, anunciou o fracasso. "O que vocês criaram é insuficiente e não se limita a mediocridade, beira ao terror e à vilania. Contemplem sua própria concepção de humanidade". Então, o que criamos juntos os seis surgiu como uma imagem tenebrosa no centro da sala branca. Uma cabeça cinza, de contornos bem definidos: crânio, testa, orelhas, queixo, maçãs do rosto e nariz. No entanto, no lugar dos olhos e boca três horrendas covas repuxadas para dentro, cujo fundo não se podia identificar. A visão bizarra do rosto disforme fez tremer todos nós, incluindo a mim, que não deixava de pensar que aquela escuridão profunda encarava diretamente o breu de nossas almas. 

A cabeça se dissipou. Tomada pelo pavor, não vi África ser escolhido para a troca. Retornei aos testes individuais e notei um comportamento diferente no verme branco da linguagem. Todos os vermes que formavam a cabeça estavam dispostos numa bandeja estéril, perfeitamente alinhados, mas o da linguagem se mexia num ritmo diferente dos demais, agitado, querendo sair pela tangente. Se ele quer sair, então que saia. Matei-o, foi muito fácil. O verme estourou e dele saiu um líquido transparente, viscoso. Senti um choque repentino dentro da minha cabeça. "Por que estou há tanto tempo em silêncio? Eu posso falar."

Corri pelos corredores, procurando por ela. Ela me entenderia, ela conseguiria traduzir para os outros o significado de matar o verme da comunicação. Encontrei a cientista e falei baixo "Ásia, nós não podemos fazer o que os pais querem. Os pais vão matar todos nós quando concluirmos a inteligência." Mostrei o verme morto e ela entendeu instantaneamente. Olhou para mim com sofrimento, como quem se frustra com o erro de uma criança inteligente e amada, mas muito inocente: eu não precisava ter usado as palavras, afinal. Eu havia causado a sua substituição, ela seria a próxima a ser trocada pelos pais.

Os pais anunciaram a chegada da nova África. Ela era bela, mas menor que o anterior, tinha um corpo feminino como o meu e se parecia com o pai. Todos, à sua maneira, eram parecidos com os pais. Eram obedietes e subservientes a eles. Eu via claramente quem trocava, quem trazia, quem mandava, quem dava a luz a cada um de nós. Mas nenhum deles era igual a mim e, por isso, eu via a substituição de todos os meus irmãos sem ser trocada. Era o meu destino ser a mistura de todos eles e a única ciente de que aquele experimento não poderia continuar. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Como ser meiga nessa sociedade de merda?

Pessoas com sentimentos incomodam. 

Mulheres que reclamam incomodam. 

Pessoas com pensamento crítico incomodam.

Mulheres que argumentam incomodam.

Pessoas combativas incomodam.

Mulheres incomodam pelo simples fato de reagir.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A glória dos debates da minha geração

Ser valorizada é imperativo

Ser valorizada é básico

Ser valorizada é, pra mim, pré-requisito pra eu ficar

E, companheira, 

Torço para que você pense igual


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O toque do algodão

Quando a minha vida está sob os efeitos da lente do amor

A cama é mais gostosa, os fios de algodão da fronha são mais sentidos

e delicadamente me desperto de um sonho 

em que eu repousava a minha mão sobre o seu corpo

enquanto você acordava 

Foi uma pena te deixar naquele plano

Fazia tempo que eu não sentia dessa maneira

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Cérebro rose gold

Ah, mas você só fala de trabalho. EU SOU ASSALARIADA E VIVO ESSA MERDA 44H SEMANAIS, (nas outras 3h que me sobram pra existir meu cérebro está derretido) VOCÊ QUER QUE EU FALE SOBRE O QUE, IOGURTE GREGO COM BISCOITO?

Se meu cérebro fosse feito de chocolate rose gold ele certamente derreteria durante o horário comercial e se solidificaria novamente durante o sono. No intervalo entre o desempenho técnico de minhas funções laborais e o sono eu apenas me esforço para formular frases gramaticais e não mandar todo mundo tomar no cu. Daí durmo, o cérebro-chocolate solidifica e quando eu acordo, pronta para um novo e lindo dia de autores de livros comendo meu cérebro com café gourmet inflacionado, na verdade eu encho a pança do dono da empresa que trabalho. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O último leitor

Entre tantas cabeças baixadas

Entre tantas luzes adaptáveis

Entre tantos sons e ruídos

piscadelas de lubrificação da córnea

Há um par de olhos que brilha

Um par de olhos que chora

Um par de olhos que sente

Um par de olhos que abre, arregala, fecha e corre


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Fagulhinha

 E se existisse uma narrativa em que o personagem principal é uma pessoa (supostamente) com alguma doença mental, mas na verdade ele está tentando falar com seus leitores? Esse personagem tem consciência de ser um personagem e tenta falar com os leitores, mas quem está dentro da história acha que ele está falando sozinho, doido de pedra. 

Olha, gostei dessa ideia, viu. Queria tentar desenvolver isso. Poderia ser a Gina, aquela personagem da cena da fuga do manicômio que eu inventei pra redação do ensino médio. 

O dia se fez noite. Tudo que dependia do gerador perdeu vida e os pacientes que ainda tinham fôlego e perceberam, começaram a reagir. A chuva cai, castigando todos os pecadores, todos os inocentes, todos serão levados. Ela corre com a camisola empapada e se atira para o muro com violência, não há mais energia, não há cerca eletrificada. Seus dedos e unhas se agarram nos antigos buracos de construção. Algo a atinge, algo de vidro, parece. Está tudo ficando embassado, é muita chuva. Mas ela não sente.

- Só sinto se eu penso. 

Ela foge, coloca fogo no manicômio e se esconde no galho de uma árvore que ela via da janelinha do quarto em que ficava presa. 

Empoleirada no galho da árvore, enquanto ri e chora. Para onde ela vai? Não há nada depois da árvore. Tomada por um turbilhão de (in)sanidade e vazio, diz: 

- Mas você não precisa ficar com pena de mim, porque você e eu somos iguais, a gente não existe se ninguém contar a nossa história, não é? 


xxxx

Eu queria voltar a acreditar que consigo escrever narrativas boas maiores que um post do blog. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Miniconto

A moça foi com a mãe ver a exposição e parou diante dos intinerantes de Portinari no MASP.

- Voinha lutou muito depois desse dia (...)

- Tás doida? Falando com quadro? 

Ela assoma.

- É que eu conheço ele.

- Como é?

- E ele me conhece também. 

O meu Nirvana, Augusto dos Anjos

No alheamento da obscura forma humana,

De que, pensando, me desencarcero,

Foi que eu, num grito de emoção, sincero

Encontrei, afinal, o meu nirvana!


Nessa manumissão schopenhauereana,

Onde a vida do humano aspecto fero

Se desarraiga, eu, feito força, impero

Na imanência da ideia soberana!


Destruída a sensação que oriunda fora

Do tato – ínfima antena aferidora

Destas tegumentárias mãos plebeias –


Gozo o prazer, que os anos não carcomem,

De haver trocado a minha forma de homem

Pela imortalidade das ideias

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O que reflete no espelho do capitalismo

Sua família te fez acreditar que você era importante e único. Se não foi ela, foram seus amigos. Se não foram seus amigos, foi seu animal de estimação. Pode ser que haja algo diferente dessa tríade, mas não consigo pensar em nada mais. 

O mundo não te acha importante e único. O mundo só olha pra você se você movimenta, multiplica ou gasta grana. Porque a grana move tudo. Tudo. Inclusive muito do que você acha importante e único em si mesmo.