terça-feira, 14 de abril de 2026

Esse cabelo

Quando eu era criança perguntavam bastante se eu era adotada ("Ela é sua?"), porque a minha mãe e meu irmão são brancos. Quando eu estava de bikini, um familiar dizia, brincando, que a minha bunda era preta. Minha mãe sempre enfatizou que queria cabelo cacheado como o meu, mas sempre alisou o dela. Um namorado meu disse que não gostava de cabelo cacheado, porque "parecia sujo" e outro disse que tinha preferência por mulheres brancas, porque "pareciam mais ingênuas". 

No dia que o meu avô português faleceu, meu tio loiro de olhos azuis mostrou minha foto criança e descabelada para a família dizendo "olha que coisinha". Eu não gostei do tom que ele usou, a gente sabe quando não é um comentário amável. Passei 19 anos alisando o cabelo por acreditar verdadeiramente que o cabelo liso era mais prático e mais bonito que esse que nasceu comigo.

Na escola de freira que eu estudei, de todas as cinco turmas do ensino médio, tinha um aluno negro. Na faculdade pública pra qual eu fui, os alunos negros fizeram um grupo pra conversar, pra se unir. Uma amiga minha foi e não gostou muito, porque a julgaram já que o namorado dela era branco. Pra ela e pra muita gente eu sou branca, pra muito branco eu não sou branca. Quando a minha sobrinha nasceu e eu passeava com ela bebezinha numa área comercial do meu bairro, uma mulher fez algum comentário sobre a beleza da Catarina e complementou "Ah, mas você não é a mãe né? Essa pele..." Catarina é branca.

Depois de cortar todo o liso, passei duas semanas em crise. Eu precisei passar muito tempo olhando meu próprio reflexo pra entender que era eu, que eu não parecia uma tia velha e que continuava sendo uma mulher bonita e atraente. Isso deve ter um mês mais ou menos. Descobri que meu cabelo só define os cachos se eu passo creme e faço mil procedimentos. Meu cabelo é indefinido igual a mim.

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