Primeiro veio a emoção
Depois o verbo.
Ser valorizada é imperativo
Ser valorizada é básico
Ser valorizada é, pra mim, pré-requisito pra eu ficar
E, companheira,
Torço para que você pense igual
Quando a minha vida está sob os efeitos da lente do amor
A cama é mais gostosa, os fios de algodão da fronha são mais sentidos
e delicadamente me desperto de um sonho
em que eu repousava a minha mão sobre o seu corpo
enquanto você acordava
Foi uma pena te deixar naquele plano
Fazia tempo que eu não sentia dessa maneira
Ah, mas você só fala de trabalho. EU SOU ASSALARIADA E VIVO ESSA MERDA 44H SEMANAIS, (nas outras 3h que me sobram pra existir meu cérebro está derretido) VOCÊ QUER QUE EU FALE SOBRE O QUE, IOGURTE GREGO COM BISCOITO?
Se meu cérebro fosse feito de chocolate rose gold ele certamente derreteria durante o horário comercial e se solidificaria novamente durante o sono. No intervalo entre o desempenho técnico de minhas funções laborais ~trabalho~ e o sono eu apenas me esforço para formular frases gramaticais e não mandar todo mundo tomar no cu. Daí durmo, o cérebro-chocolate solidifica e quando eu acordo, pronta para um novo e lindo dia de autores de livros comendo meu cérebro com café gourmet inflacionado, na verdade eu encho a pança do dono da empresa que trabalho.
Entre tantas cabeças baixadas
Entre tantas luzes adaptáveis
Entre tantos sons e ruídos
piscadelas de lubrificação da córnea
Há um par de olhos que brilha
Um par de olhos que chora
Um par de olhos que sente
Um par de olhos que abre, arregala, fecha e corre
E se existisse uma narrativa em que o personagem principal é uma pessoa (supostamente) com alguma doença mental, mas na verdade ele está tentando falar com seus leitores? Esse personagem tem consciência de ser um personagem e tenta falar com os leitores, mas quem está dentro da história acha que ele está falando sozinho, doido de pedra.
Olha, gostei dessa ideia, viu. Queria tentar desenvolver isso. Poderia ser a Gina, aquela personagem da cena da fuga do manicômio que eu inventei pra redação do ensino médio.
O dia se fez noite. Tudo que dependia do gerador perdeu vida e os pacientes que ainda tinham fôlego e perceberam, começaram a reagir. A chuva cai, castigando todos os pecadores, todos os inocentes, todos serão levados. Ela corre com a camisola empapada e se atira para o muro com violência, não há mais energia, não há cerca eletrificada. Seus dedos e unhas se agarram nos antigos buracos de construção. Algo a atinge, algo de vidro, parece. Está tudo ficando embassado, é muita chuva. Mas ela não sente.
- Só sinto se eu penso.
Ela foge, coloca fogo no manicômio e se esconde no galho de uma árvore que ela via da janelinha do quarto em que ficava presa.
Empoleirada no galho da árvore, enquanto ri e chora. Para onde ela vai? Não há nada depois da árvore. Tomada por um turbilhão de (in)sanidade e vazio, diz:
- Mas você não precisa ficar com pena de mim, porque você e eu somos iguais, a gente não existe se ninguém contar a nossa história, não é?
xxxx
Eu queria voltar a acreditar que consigo escrever narrativas boas maiores que um post do blog.
A moça foi com a mãe ver a exposição e parou diante dos intinerantes de Portinari no MASP.
- Voinha lutou muito depois desse dia (...)
- Tás doida? Falando com quadro?
Ela assoma.
- É que eu conheço ele.
- Como é?
- E ele me conhece também.