terça-feira, 5 de maio de 2026

Só por hoje

Só por hoje eu não vou pensar no meu trabalho de forma negativa nem criticar toda e qualquer linha que eu escreva fora dos meus padrões imaginários e inalcançáveis.

Só por hoje eu não vou acreditar em tudo que meu cérebro doente imagina. 

Só por hoje eu vou diminuir o número de estímulos para que minha cabeça, minha criatividade, minha sanidade se mantenha. Vou trabalhar direitinho, na medida do que eles merecem de mim, e em seguida guardarei a minha essência vital feminina e maravilhosa para aquilo que importa, para aquilo que realmente interessa.

Só por hoje não vou me arrepender de colocar limites e mostrar ao outro que comigo as pessoas não podem falar de qualquer maneira, que não se consegue um favor com piadinhas e deboches. Não sou esponja, não sou psicóloga.

Só por hoje eu vou fazer um chá à tarde e bebê-lo morno, sentindo o gosto do mato, me alimentando da esperança de renascimento que vem da terra e entra no meu corpo. 

Só por hoje vou me cuidar pra que amanhã seja um dia bom.  

 

Experiência de quase esquizofrenia

Sinto que preciso escrever muito sobre isso. Muito. Já escrevi e ainda não foi o bastante. Escrever para organizar, para que o universo organizado das palavras me ajudem a organizar a mim mesma, como diria Candido, como dia Bartolomeu Campos de Queiroz.

Desassociei. 

Eu-lírico, livre arbítrio, tudo isso ganhou corpo depois dessa situação. Tudo isso e também o conto do Edgar Alan Poe do corvo que diz Nevermore, nevermore. Vou tatuar esse corvo. 

Palavras da Gina

A morte é sempre a primeira opção, depois vem a diplomacia.

Ah, não me venha com essa, esse discurso eloquente. Fala difícil, usa palavra bonita, faz citação de livro, capítulo, ano, página, abre aspas, fecha aspas. - Ela gesticula no ar movimentando os dedos em movimentos iguais - Mas nada disso vale, nada... 

As lágrimas brotam dos olhos castanhos da moça. - Nada disso vale, porque são palavras vazias. Porque ninguém se importa de verdade com a árvore. 

Você e eu sabemos que o seu deus se chama dinheiro.


terça-feira, 14 de abril de 2026

Esse cabelo

Quando eu era criança perguntavam bastante se eu era adotada ("Ela é sua?"), porque a minha mãe e meu irmão são brancos. Quando eu estava de bikini, um familiar dizia, brincando, que a minha bunda era preta. Minha mãe sempre enfatizou que queria cabelo cacheado como o meu, mas sempre alisou o dela. Um namorado meu disse que não gostava de cabelo cacheado, porque "parecia sujo" e outro disse que tinha preferência por mulheres brancas, porque "pareciam mais ingênuas". 

No dia que o meu avô português faleceu, meu tio loiro de olhos azuis mostrou minha foto criança e descabelada para a família dizendo "olha que coisinha". Eu não gostei do tom que ele usou, a gente sabe quando não é um comentário amável. Passei 19 anos alisando o cabelo por acreditar verdadeiramente que o cabelo liso era mais prático e mais bonito que esse que nasceu comigo.

Na escola de freira que eu estudei, de todas as cinco turmas do ensino médio, tinha um aluno negro. Na faculdade pública pra qual eu fui, os alunos negros fizeram um grupo pra conversar, pra se unir. Uma amiga minha foi e não gostou muito, porque a julgaram já que o namorado dela era branco. Pra ela e pra muita gente eu sou branca, pra muito branco eu não sou branca. Quando a minha sobrinha nasceu e eu passeava com ela bebezinha numa área comercial do meu bairro, uma mulher fez algum comentário sobre a beleza da Catarina e complementou "Ah, mas você não é a mãe né? Essa pele..." Catarina é branca.

Depois de cortar todo o liso, passei duas semanas em crise. Eu precisei passar muito tempo olhando meu próprio reflexo pra entender que era eu, que eu não parecia uma tia velha e que continuava sendo uma mulher bonita e atraente. Isso deve ter um mês mais ou menos. Descobri que meu cabelo só define os cachos se eu passo creme e faço mil procedimentos. Meu cabelo é indefinido igual a mim.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Declaração de amor número 578 ao meu curso

 A Letras vai de encontro ao oposto das novas regras desse mundo. Ela pede calma, silêncio, tempo. Ela quer que você pense muito, que você vá além, além dos significados, do convencional, do lado de lá da fronteira das palavras. Colocando o pé, a perna, mergulhando de cabeça na imaginação, na subjetividade, na interioridade, na coletividade. 

A Letras pede que você escute com afinco, ela exige sensibilidade, interpretação. Diálogo. Afinal, os que falam sozinhos poderiam ficar em silêncio, absortos em si. 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Querido blog,

Tomei quase uma cartela inteira do remédio. Eu me sinto bem melhor, estava num estado lastimável. Nos primeiros dias senti muito enjôo, muito mesmo. Agora não mais. E a minha percepção do tempo mudou, o que já era de se esperar porque eu estava com muita ansiedade. Nos dias sem medicação eu sentia que o tempo passava muito rápido, muito mesmo. Agora não, parece normal, parece dentro do tempo que o tempo era pra ser, não acelerado, não desacelerado. 

Deve ter um mês que eu parei de jogar, desde então nunca mais dormi 1h da manhã. Como eu conseguia? Eu já vou deitar onze e pouca e tenho sono ao longo do dia... Os pensamentos continuam vindo em um volume grande, às vezes não consigo ler, fazer artesanato ou tomar decisões. 

Que sono. Não sinto meu chakra fluindo. Às vezes eu só queria dormir, comer e ficar deitada por dias e dias, em silêncio. Dias e dias de frescor, sono e comida boa. 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Ser adulto

 Ser adulto em 2026 é perceber que você está sorrindo novamente e se encantando com o papel de parede do computador "porque parece uma casinha de fada". Ser adulto em 2026 é também ficar na dúvida se essa alegria e percepção só vieram a sua mente porque o antidepressivo está fazendo efeito.