Iruka, Kakashi, Jiraya, Gojo, Izumi Curtis.
Todos eles.
Descobri que tomei o remédio que supostamente matou o Michael Jackson para fazer uma endoscopia. Antes de tomar, colocaram o acesso com a agulha. Fiquei muito nervosa, muito ansiosa, chorei. Mas não me dei conta quando colocaram a substância, as pessoas estavam conversando normalmente sobre as próprias vidas, acho que para me distrair. Ou não, não sei.
Eu nem senti quando comecei a dormir. Igual mesmo quando pego no sono à noite. Mesmo sendo uma sensação idêntica, foi só por causa disso que me veio essa pergunta: "Será que morrer é assim?". O sofrimento do medo anterior ao sono foi sentido, a dor da picada foi sentida, o sono em si não. Morrer deve ser assim.
Só por hoje eu não vou pensar no meu trabalho de forma negativa nem criticar toda e qualquer linha que eu escreva fora dos meus padrões imaginários e inalcançáveis.
Só por hoje eu não vou acreditar em tudo que meu cérebro doente imagina.
Só por hoje eu vou diminuir o número de estímulos para que minha cabeça, minha criatividade, minha sanidade se mantenha. Vou trabalhar direitinho, na medida do que eles merecem de mim, e em seguida guardarei a minha essência vital feminina e maravilhosa para aquilo que importa, para aquilo que realmente interessa.
Só por hoje não vou me arrepender de colocar limites e mostrar ao outro que comigo as pessoas não podem falar de qualquer maneira, que não se consegue um favor com piadinhas e deboches. Não sou esponja, não sou psicóloga.
Só por hoje eu vou fazer um chá à tarde e bebê-lo morno, sentindo o gosto do mato, me alimentando da esperança de renascimento que vem da terra e entra no meu corpo.
Só por hoje vou me cuidar pra que amanhã seja um dia bom.
Sinto que preciso escrever muito sobre isso. Muito. Já escrevi e ainda não foi o bastante. Escrever para organizar, para que o universo organizado das palavras me ajudem a organizar a mim mesma, como diria Candido, como dia Bartolomeu Campos de Queiroz.
Desassociei.
Eu-lírico, livre arbítrio, tudo isso ganhou corpo depois dessa situação. Tudo isso e também o conto do Edgar Alan Poe do corvo que diz Nevermore, nevermore. Vou tatuar esse corvo.
A morte é sempre a primeira opção, depois vem a diplomacia.
Ah, não me venha com essa, esse discurso eloquente. Fala difícil, usa palavra bonita, faz citação de livro, capítulo, ano, página, abre aspas, fecha aspas. - Ela gesticula no ar movimentando os dedos em movimentos iguais - Mas nada disso vale, nada...
As lágrimas brotam dos olhos castanhos da moça. - Nada disso vale, porque são palavras vazias. Porque ninguém se importa de verdade com a árvore.
Você e eu sabemos que o seu deus se chama dinheiro.
Os remédios foram de grande ajuda para a sociedade, quem os consegue, sente menos dor, sente menos os efeitos colaterais dessa vida destrutiva que a gente leva. Muita gente que quer viver e tem motivações toma remédios e fica bem e vive mais um pouco.
Algumas pessoas se mantém vivas, porque a vida é um produto muito especial, ensinaram pra gente que era algo precioso. Precisam de nós pra girar as engrenagens. Precisam cada vez menos, claro, mas ainda precisam...
Eu era uma dessas pessoas que endeusavam a vida, que nada valia mais que ela. Acreditava veementemente que era um completo e total absurdo tentar contra ela. Mas a vida é isso que custa, que paga, que se vende, que se explora, que se consome. Preciso dormir bastante. Será que isso é do remédio?