quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Lu

Vim visitar a minha mãe e, no caminho de casa, reparei numa moça que andava na calçada. Mesma altura, mesmo porte, mesmo rosto, mesmo tudo, era então uma menina que tinha estudado comigo no ensino fundamental. Não era estranho que ela estivesse fazendo aquele caminho, afinal, estávamos na rua da escola que também era a rua da casa da mãe dela. 

Mas ela tinha um semblante triste, cabisbaixo, braços cruzados, cabelo preso, os olhos perdidos. Mas o sinal abriu e o carro precisou andar. Eu tinha que ter falado com ela, será que ela lembraria de mim? E se ela tivesse me visto na rua, ela teria me reconhecido? Como ela me veria?

A vida mentirosa dos adultos

 Com o tempo, percebi que, quando se reconhecia em mim, minha tia era dominada pelo afeto, mas, se identificava algum traço do meu pai, desconfiava que eu faria com ela ou com as pessoas que ela amava o que o irmão lhe fizera no passado. De resto, o mesmo acontecia comigo. Eu a achava extraordinária quando me imaginava uma adulta combativa, e repugnante quando reconhecia nela os traços do meu pai. Aquela manhã, pensei de repente em alfo que me pareceu insuportável e ao mesmo tempo divertido: nem eu nem minha tia nem meu pai podíamos eliminar nossas raízes comuns e, portante, acabávamos amando e odiando, dependendo do meu caso, sempre nós mesmos.


E. Ferrante. 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Maturação

Em 2012, quando comecei a fazer visitas em faculdades particulares - levada em excursão pela minha própria escola - vi colegas se esgueirando entre cortinas e janelas. "A vista daqui é bonita, olha", me mostraram uma foto da praia de botafogo e acrescentaram "É para colocar no Instagram". Eu, que ainda vinha sofrendo pelo fim do orkut e mal entrara no Facebook, entendi que o propósito dessa nova rede social era postar fotos bonitas e quadradas.

Por um tempo meus colegas se esforçaram para capturar imagens, uma vez chegaram a me mostrar um click tirado ali perto da UERJ, perto da Mangueira, de um muro e um pedaço de calçada com vários objetos descartados. Entre o lixo, havia um manequim feminino de pé, no meio de tudo isso. "Achei bastante conceitual" disse a colega que tirou e postou a foto. 

Passados 14 anos dessa apresentação, procuro pela nova rede social focada em fotos bonitas e quadradas, que motivam o olhar artístico dos adolescentes. 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Sonho de uns, pesadelo de outros

Eu tinha 30 anos e estava vestindo uniforme escolar novamente, caminhando em direção ao Lobo da Cunha. A escola era eterna, determinada que as pessoas fossem em diferentes etapas da vida, estudar diferentes coisas. Quando criança, foco em arte, alimentação e educação física. Depois de maiorzinho, matemática voltada para o dia a dia, impostos, contas, financiamentos, juros, administração de patrimônio. Mas depois de velho, o que se estudava na escola era filosofia mesmo. Já imaginou? Escola pra sempre e uma turma de cabelo branco filosofando? Acordei. 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Querida Lu,

 Andei muito triste, muito revoltada, muito agoniada com a vida nos últimos meses. Andei muito... Como os adultos mais adultos que conheço. 

Como uma cartada de fé, peguei pra ver Naruto. 

O cheiro do café puro toma conta do quarto, reconheço as vozes dos personagens, já sei de cor os bordões e o que vai acontecer e acabo me emocionando novamente com o mesmo episódio... Como é bom estar em casa. 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

quarta-feira, 20 de maio de 2026

propofol

Descobri que tomei o remédio que supostamente matou o Michael Jackson para fazer uma endoscopia. Antes de tomar, colocaram o acesso com a agulha. Fiquei muito nervosa, muito ansiosa, chorei. Mas não me dei conta quando colocaram a substância, as pessoas estavam conversando normalmente sobre as próprias vidas, acho que para me distrair. Ou não, não sei.

Eu nem senti quando comecei a dormir. Igual mesmo quando pego no sono à noite. Mesmo sendo uma sensação idêntica, foi só por causa disso que me veio essa pergunta: "Será que morrer é assim?". O sofrimento do medo anterior ao sono foi sentido, a dor da picada foi sentida, o sono em si não. Morrer deve ser assim.