E se existisse uma narrativa em que o personagem principal é uma pessoa (supostamente) com alguma doença mental, mas na verdade ele está tentando falar com seus leitores? Esse personagem tem consciência de ser um personagem e tenta falar com os leitores, mas quem está dentro da história acha que ele está falando sozinho, doido de pedra.
Olha, gostei dessa ideia, viu. Queria tentar desenvolver isso. Poderia ser a Gina, aquela personagem da cena da fuga do manicômio que eu inventei pra redação do ensino médio.
O dia se fez noite. Tudo que dependia do gerador perdeu vida e os pacientes que ainda tinham fôlego e perceberam, começaram a reagir. A chuva cai, castigando todos os pecadores, todos os inocentes, todos serão levados. Ela corre com a camisola empapada e se atira para o muro com violência, não há mais energia, não há cerca eletrificada. Seus dedos e unhas se agarram nos antigos buracos de construção. Algo a atinge, algo de vidro, parece. Está tudo ficando embassado, é muita chuva. Mas ela não sente.
- Só sinto se eu penso.
Ela foge, coloca fogo no manicômio e se esconde no galho de uma árvore que ela via da janelinha do quarto em que ficava presa.
Empoleirada no galho da árvore, enquanto ri e chora. Para onde ela vai? Não há nada depois da árvore. Tomada por um turbilhão de (in)sanidade e vazio, diz:
- Mas você não precisa ficar com pena de mim, porque você e eu somos iguais, a gente não existe se ninguém contar a nossa história, não é?
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Eu queria voltar a acreditar que consigo escrever narrativas boas maiores que um post do blog.