quinta-feira, 9 de abril de 2026

Querido blog,

Tomei quase uma cartela inteira do remédio. Eu me sinto bem melhor, estava num estado lastimável. Nos primeiros dias senti muito enjôo, muito mesmo. Agora não mais. E a minha percepção do tempo mudou, o que já era de se esperar porque eu estava com muita ansiedade. Nos dias sem medicação eu sentia que o tempo passava muito rápido, muito mesmo. Agora não, parece normal, parece dentro do tempo que o tempo era pra ser, não acelerado, não desacelerado. 

Deve ter um mês que eu parei de jogar, desde então nunca mais dormi 1h da manhã. Como eu conseguia? Eu já vou deitar onze e pouca e tenho sono ao longo do dia... Os pensamentos continuam vindo em um volume grande, às vezes não consigo ler, fazer artesanato ou tomar decisões. 

Que sono. Não sinto meu chakra fluindo. Às vezes eu só queria dormir, comer e ficar deitada por dias e dias, em silêncio. Dias e dias de frescor, sono e comida boa. 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Ser adulto

 Ser adulto em 2026 é perceber que você está sorrindo novamente e se encantando com o papel de parede do computador "porque parece uma casinha de fada". Ser adulto em 2026 é também ficar na dúvida se essa alegria e percepção só vieram a sua mente porque o antidepressivo está fazendo efeito. 

Mito da caverna de Platão versão 2026

As pessoas, enquanto dependentes de telas, estão numa espécie de caverna novamente? 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Ainda puta com copywrinting

Se o comediante modifica a mensagem para conseguir uma reação do público, seja ela positiva ou negativa, o vendedor subverte a mensagem para influenciar, para enganar o público.

Pobre linguagem, sempre dependente da sorte de quem usa. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

A diferença entre o veneno e o remédio é a dosagem

 É muito curioso como ditados populares (ou provérbios) ressoam depois de anos e anos silenciados no fundo da mente. As pessoas compreendiam, interpretavam metáforas, analogias, e repassavam umas para as outras de maneira oral. Mas elas faziam esse movimento sem explicar esses nomes técnicos da gramática. 

Se essas frases chegaram até mim depois de tantos anos, não é lógico que tenha sido obra do acaso. Essas frases comunicam verdades que se aplicam à realidade. Quem não caça com cão, caça com gato. Da-se um jeito para que a caça se realize, mesmo que a ajuda não seja aquela que foi padronizada pra isso. Mais vale um pássaro na mão do que dois voando. Essa toca no assunto do olho grande, né? De que adianta ser ambicioso sem garantias? Hm... Cabeça vazia oficina do diabo. Essa é muito boa. Não é que a gente tenha que se matar de trabalhar, mas não ter algo com o que se ocupar pode resultar em grandes problemas. Eu associo esse diabo logo a pensamentos intrusivos, destrutivos mesmo.

A frase que coloquei no título, segundo o Google, é atribuída a um médico, mas se caiu na boca do povo, não é provérbio? Veneno e remédio nessa altura do campeonato já são palavras como o cão, o gato, o pássaro e até o diabo. 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Colega do mestrado

Cursei uma matéria de literatura portuguesa no mestrado. Nunca tinha ouvido falar da Revolução dos Cravos até então. Nesse curso havia muitos especialistas em literatura portuguesa; uma moça formada em Letras e Filosofia tornou sua tese de doutorado sobre Saramago em livro e deu uma palestra pra nós. Todo mundo estava mergulhado com snorkel nas profundidades das metáforas, dos detalhes, e eu estava navegando com meu barquinho de papel, preocupada com um vento ventania chamado "trabalho final" que estava logo ali. 

Eu chegava bem cedo pra aula e aproveitava para conversar com uma colega de classe. Ela morava em Teresópolis, pegava um ônibus de madrugada, assistia apenas àquela aula e retornava pra casa. O dia inteiro dela praticamente girava em torno daqueles 180 minutos. Ela passava uma vibe de quem morava perto das árvores, porque falava das trilhas e do mountain bike que praticava com o marido. Ela era muito centrada, contida e se vestia com sobriedade. Falava com propriedade, muito discreta. Ela estava no doutorado, se não me engano. 

Um belo dia ela sumiu. Quando as faltas dela acumularam, parte da turma pensou em muitas coisas, que o gasto do ônibus ficou pesado, que essa rotina estava difícil, que ela entrou em algum acordo com a professora. Pensamos muita coisa, mas nunca que ela retornaria mega loira e de cabelo desfiado, radiante, dizendo que tinha fugido de casa com uma mochila e estava morando com um ex namorado da época da escola.

O que leva uma mulher a fugir da própria casa com uma mochila? A liberdade é mesmo muito cara. 

segunda-feira, 2 de março de 2026

Tríade da arte anônima, daquilo que Eles chamam de "naif"

Falta energia para lutar com as armas do conhecimento, porque para se obter conhecimento é necessário um contexto favorável. Se lutamos com as armas da violência, somos bárbaros. Falta moeda para lutar com as armas da influência. Sobrou a arte, oculta, opaca, sem arremate, sem a pretensão de ser arte porque falta conhecimento, influência e moeda. Como, então, lutar?
No silêncio, utilizando de tripê a criatividade, a sorte e a mensagem.