Cursei uma matéria de literatura portuguesa no mestrado. Nunca tinha ouvido falar da Revolução dos Cravos até então. Nesse curso havia muitos especialistas em literatura portuguesa; uma moça formada em Letras e Filosofia tornou sua tese de doutorado sobre Saramago em livro e deu uma palestra pra nós. Todo mundo estava mergulhado com snorkel nas profundidades das metáforas, dos detalhes, e eu estava navegando com meu barquinho de papel, preocupada com um vento ventania chamado "trabalho final" que estava logo ali.
Eu chegava bem cedo pra aula e aproveitava para conversar com uma colega de classe. Ela morava em Teresópolis, pegava um ônibus de madrugada, assistia apenas àquela aula e retornava pra casa. O dia inteiro dela praticamente girava em torno daqueles 180 minutos. Ela passava uma vibe de quem morava perto das árvores, porque falava das trilhas e do mountain bike que praticava com o marido. Ela era muito centrada, contida e se vestia com sobriedade. Falava com propriedade, muito discreta. Ela estava no doutorado, se não me engano.
Um belo dia ela sumiu. Quando as faltas dela acumularam, parte da turma pensou em muitas coisas, que o gasto do ônibus ficou pesado, que essa rotina estava difícil, que ela entrou em algum acordo com a professora. Pensamos muita coisa, mas nunca que ela retornaria mega loira e de cabelo desfiado, radiante, dizendo que tinha fugido de casa com uma mochila e estava morando com um ex namorado da época da escola.
O que leva uma mulher a fugir da própria casa com uma mochila? A liberdade é mesmo muito cara.
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