Mostrando postagens com marcador Fragmentos de memória. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fragmentos de memória. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Maturação

Em 2012, quando comecei a fazer visitas em faculdades particulares - levada em excursão pela minha própria escola - vi colegas se esgueirando entre cortinas e janelas. "A vista daqui é bonita, olha", me mostraram uma foto da praia de botafogo e acrescentaram "É para colocar no Instagram". Eu, que ainda vinha sofrendo pelo fim do orkut e mal entrara no Facebook, entendi que o propósito dessa nova rede social era postar fotos bonitas e quadradas.

Por um tempo meus colegas se esforçaram para capturar imagens, uma vez chegaram a me mostrar um click tirado ali perto da UERJ, perto da Mangueira, de um muro e um pedaço de calçada com vários objetos descartados. Entre o lixo, havia um manequim feminino de pé, no meio de tudo isso. "Achei bastante conceitual" disse a colega que tirou e postou a foto. 

Passados 14 anos dessa apresentação, procuro pela nova rede social focada em fotos bonitas e quadradas, que motivam o olhar artístico dos adolescentes. 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Sonho de uns, pesadelo de outros

Eu tinha 30 anos e estava vestindo uniforme escolar novamente, caminhando em direção ao Lobo da Cunha. A escola era eterna, determinada que as pessoas fossem em diferentes etapas da vida, estudar diferentes coisas. Quando criança, foco em arte, alimentação e educação física. Depois de maiorzinho, matemática voltada para o dia a dia, impostos, contas, financiamentos, juros, administração de patrimônio. Mas depois de velho, o que se estudava na escola era filosofia mesmo. Já imaginou? Escola pra sempre e uma turma de cabelo branco filosofando? Acordei. 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Querida Lu,

 Andei muito triste, muito revoltada, muito agoniada com a vida nos últimos meses. Andei muito... Como os adultos mais adultos que conheço. 

Como uma cartada de fé, peguei pra ver Naruto. 

O cheiro do café puro toma conta do quarto, reconheço as vozes dos personagens, já sei de cor os bordões e o que vai acontecer e acabo me emocionando novamente com o mesmo episódio... Como é bom estar em casa. 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

propofol

Descobri que tomei o remédio que supostamente matou o Michael Jackson para fazer uma endoscopia. Antes de tomar, colocaram o acesso com a agulha. Fiquei muito nervosa, muito ansiosa, chorei. Mas não me dei conta quando colocaram a substância, as pessoas estavam conversando normalmente sobre as próprias vidas, acho que para me distrair. Ou não, não sei.

Eu nem senti quando comecei a dormir. Igual mesmo quando pego no sono à noite. Mesmo sendo uma sensação idêntica, foi só por causa disso que me veio essa pergunta: "Será que morrer é assim?". O sofrimento do medo anterior ao sono foi sentido, a dor da picada foi sentida, o sono em si não. Morrer deve ser assim.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Experiência de quase esquizofrenia

Sinto que preciso escrever muito sobre isso. Muito. Já escrevi e ainda não foi o bastante. Escrever para organizar, para que o universo organizado das palavras me ajudem a organizar a mim mesma, como diria Candido, como dia Bartolomeu Campos de Queiroz.

Desassociei. 

Eu-lírico, livre arbítrio, tudo isso ganhou corpo depois dessa situação. Tudo isso e também o conto do Edgar Alan Poe do corvo que diz Nevermore, nevermore. Vou tatuar esse corvo. 

Quanto vale um pobre premium?

 Os remédios foram de grande ajuda para a sociedade, quem os consegue, sente menos dor, sente menos os efeitos colaterais dessa vida destrutiva que a gente leva. Muita gente que quer viver e tem motivações toma remédios e fica bem e vive mais um pouco.

Algumas pessoas se mantém vivas, porque a vida é um produto muito especial, ensinaram pra gente que era algo precioso. Precisam de nós pra girar as engrenagens. Precisam cada vez menos, claro, mas ainda precisam... 

Eu era uma dessas pessoas que endeusavam a vida, que nada valia mais que ela. Acreditava veementemente que era um completo e total absurdo tentar contra ela. Mas a vida é isso que custa, que paga, que se vende, que se explora, que se consome. Preciso dormir bastante. Será que isso é do remédio?


terça-feira, 14 de abril de 2026

Esse cabelo

Quando eu era criança perguntavam bastante se eu era adotada ("Ela é sua?"), porque a minha mãe e meu irmão são brancos. Quando eu estava de bikini, um familiar dizia, brincando, que a minha bunda era preta. Minha mãe sempre enfatizou que queria cabelo cacheado como o meu, mas sempre alisou o dela. Um namorado meu disse que não gostava de cabelo cacheado, porque "parecia sujo" e outro disse que tinha preferência por mulheres brancas, porque "pareciam mais ingênuas". 

No dia que o meu avô português faleceu, meu tio loiro de olhos azuis mostrou minha foto criança e descabelada para a família dizendo "olha que coisinha". Eu não gostei do tom que ele usou, a gente sabe quando não é um comentário amável. Passei 19 anos alisando o cabelo por acreditar verdadeiramente que o cabelo liso era mais prático e mais bonito que esse que nasceu comigo.

Na escola de freira que eu estudei, de todas as cinco turmas do ensino médio, tinha um aluno negro. Na faculdade pública pra qual eu fui, os alunos negros fizeram um grupo pra conversar, pra se unir. Uma amiga minha foi e não gostou muito, porque a julgaram já que o namorado dela era branco. Pra ela e pra muita gente eu sou branca, pra muito branco eu não sou branca. Quando a minha sobrinha nasceu e eu passeava com ela bebezinha numa área comercial do meu bairro, uma mulher fez algum comentário sobre a beleza da Catarina e complementou "Ah, mas você não é a mãe né? Essa pele..." Catarina é branca.

Depois de cortar todo o liso, passei duas semanas em crise. Eu precisei passar muito tempo olhando meu próprio reflexo pra entender que era eu, que eu não parecia uma tia velha e que continuava sendo uma mulher bonita e atraente. Isso deve ter um mês mais ou menos. Descobri que meu cabelo só define os cachos se eu passo creme e faço mil procedimentos. Meu cabelo é indefinido igual a mim.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Querido blog,

Tomei quase uma cartela inteira do remédio. Eu me sinto bem melhor, estava num estado lastimável. Nos primeiros dias senti muito enjôo, muito mesmo. Agora não mais. E a minha percepção do tempo mudou, o que já era de se esperar porque eu estava com muita ansiedade. Nos dias sem medicação eu sentia que o tempo passava muito rápido, muito mesmo. Agora não, parece normal, parece dentro do tempo que o tempo era pra ser, não acelerado, não desacelerado. 

Deve ter um mês que eu parei de jogar, desde então nunca mais dormi 1h da manhã. Como eu conseguia? Eu já vou deitar onze e pouca e tenho sono ao longo do dia... Os pensamentos continuam vindo em um volume grande, às vezes não consigo ler, fazer artesanato ou tomar decisões. 

Que sono. Não sinto meu chakra fluindo. Às vezes eu só queria dormir, comer e ficar deitada por dias e dias, em silêncio. Dias e dias de frescor, sono e comida boa. 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Ser adulto

 Ser adulto em 2026 é perceber que você está sorrindo novamente e se encantando com o papel de parede do computador "porque parece uma casinha de fada". Ser adulto em 2026 é também ficar na dúvida se essa alegria e percepção só vieram a sua mente porque o antidepressivo está fazendo efeito. 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Ainda puta com copywrinting

Se o comediante modifica a mensagem para conseguir uma reação do público, seja ela positiva ou negativa, o vendedor subverte a mensagem para influenciar, para enganar o público.

Pobre linguagem, sempre dependente da sorte de quem usa. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

A diferença entre o veneno e o remédio é a dosagem

 É muito curioso como ditados populares (ou provérbios) ressoam depois de anos e anos silenciados no fundo da mente. As pessoas compreendiam, interpretavam metáforas, analogias, e repassavam umas para as outras de maneira oral. Mas elas faziam esse movimento sem explicar esses nomes técnicos da gramática. 

Se essas frases chegaram até mim depois de tantos anos, não é lógico que tenha sido obra do acaso. Essas frases comunicam verdades que se aplicam à realidade. Quem não caça com cão, caça com gato. Da-se um jeito para que a caça se realize, mesmo que a ajuda não seja aquela que foi padronizada pra isso. Mais vale um pássaro na mão do que dois voando. Essa toca no assunto do olho grande, né? De que adianta ser ambicioso sem garantias? Hm... Cabeça vazia oficina do diabo. Essa é muito boa. Não é que a gente tenha que se matar de trabalhar, mas não ter algo com o que se ocupar pode resultar em grandes problemas. Eu associo esse diabo logo a pensamentos intrusivos, destrutivos mesmo.

A frase que coloquei no título, segundo o Google, é atribuída a um médico, mas se caiu na boca do povo, não é provérbio? Veneno e remédio nessa altura do campeonato já são palavras como o cão, o gato, o pássaro e até o diabo. 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Colega do mestrado

Cursei uma matéria de literatura portuguesa no mestrado. Nunca tinha ouvido falar da Revolução dos Cravos até então. Nesse curso havia muitos especialistas em literatura portuguesa; uma moça formada em Letras e Filosofia tornou sua tese de doutorado sobre Saramago em livro e deu uma palestra pra nós. Todo mundo estava mergulhado com snorkel nas profundidades das metáforas, dos detalhes, e eu estava navegando com meu barquinho de papel, preocupada com um vento ventania chamado "trabalho final" que estava logo ali. 

Eu chegava bem cedo pra aula e aproveitava para conversar com uma colega de classe. Ela morava em Teresópolis, pegava um ônibus de madrugada, assistia apenas àquela aula e retornava pra casa. O dia inteiro dela praticamente girava em torno daqueles 180 minutos. Ela passava uma vibe de quem morava perto das árvores, porque falava das trilhas e do mountain bike que praticava com o marido. Ela era muito centrada, contida e se vestia com sobriedade. Falava com propriedade, muito discreta. Ela estava no doutorado, se não me engano. 

Um belo dia ela sumiu. Quando as faltas dela acumularam, parte da turma pensou em muitas coisas, que o gasto do ônibus ficou pesado, que essa rotina estava difícil, que ela entrou em algum acordo com a professora. Pensamos muita coisa, mas nunca que ela retornaria mega loira e de cabelo desfiado, radiante, dizendo que tinha fugido de casa com uma mochila e estava morando com um ex namorado da época da escola.

O que leva uma mulher a fugir da própria casa com uma mochila? A liberdade é mesmo muito cara. 

segunda-feira, 2 de março de 2026

Tríade da arte anônima, daquilo que Eles chamam de "naif"

Falta energia para lutar com as armas do conhecimento, porque para se obter conhecimento é necessário um contexto favorável. Se lutamos com as armas da violência, somos bárbaros. Falta moeda para lutar com as armas da influência. Sobrou a arte, oculta, opaca, sem arremate, sem a pretensão de ser arte porque falta conhecimento, influência e moeda. Como, então, lutar?
No silêncio, utilizando de tripê a criatividade, a sorte e a mensagem.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Se nada está fazendo sentido, então eu vou criar

 Haverá o dia em que eu mesma lerei textos e poemas escritos em diários e aqui no blog e reconhecerei na escrita e no poético minha fuga da realidade. A realidade aqui referida pode ser: os meus pensamentos destrutivos, que modificam, de fato, o que está acontecendo, o cansaço do trabalho bem executado, especializado e mal remunerado, as dificuldades emocionais que são produto das relações humanas, as feridas já cicatrizadas da memória que não pulsam, mas são vistas.

É mesmo um pouco irônico da minha parte defender que a literatura não serve só como fuga se meu acesso, minha busca a ela se dá justamente ansiando esse conforto, esse acolhimento. Mesmo que eu pense sobre minhas questões da realidade, não estou nela, estou num lugar a parte, num mundo, meu deus, num universo que existe para o texto e eu.  

Quando as coisas não estão fazendo sentido, eu corro pra cá, pra escrita. Sempre foi assim, sempre foi o meu lugar, o meu porto seguro. A minha psicóloga destacou isso de forma brilhante, disse, depois de me ouvir falar uns 45 minutos "O que você está querendo dizer é: se nada está fazendo sentido, então eu vou criar, é isso, Mariana?"

É isso. Se a literatura não existisse, certamente eu também não. 

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Feliz aniversário, blog

Feliz 10 aninhos

Nem parece, é tipo o número de celular que uso "provisoriamente" desde que fui assaltada em 2016. Os últimos dez anos foram uma loucura, não? Tédio é algo que não consta nesse tempo. Que venham mais 10, mais 100 anos de escrita. Obrigada por me dar espaço para existir através das palavras.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Dieta do pesquisador

Eu 16h lanchando: ain, vou comer uma banana com aveia.

Eu 23:34h escrevendo o trabalho da faculdade: cadê o presunto? eu preciso do PRE-SUN-TO.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Mind the gap

 Quando eu era adolescente, das mil coisas que inventei que queria e que seriam "maneiras", uma delas era conhecer todas as estações do metrô do Rio de Janeiro. Imagina descer em cada uma das estações por precisar ir a aquele lugar? Não por ter ido de propósito, saí de casa, fui, desci, vi, voltei. Não, ir mesmo. Ir para fazer algo naquele lugar. 

Quando desci no Catete pela primeira vez achei tudo muito confuso, meio assustador até. Tinha muita gente na rua e aquela casa imensa em que o presidente se matou. Dizem que virou um museu e que quando você passa pela porta para entrar no quarto do presidente, toca uma musiquinha macabra. ui. 

A Uruguaiana era outra que eu gostava de ir, mas nunca entendia como a minha mãe conhecia todas aquelas entradas, como ela não se perdia? Saia por um lado, entrava por outro e tudo dava no mesmo buraco. Incrível. 

Lembro de quando precisei descer na Carioca pela primeira vez, foi para encontrar um menino. "Estou indo nas Lojas Americanas" anunciei antes de sair de casa. Eu tinha mania de andar a pé para cima e para baixo e era época de natal. Mas a Americanas ficava, tipo, 2 km da minha casa e a estação carioca, sei lá, muito mais que isso. A ida foi "estou numa aventuraaaa" e a volta "que ideia de merda, mds, vou ficar de castigo".

Mas a melhor história não é nem essa. A melhor de todas foi quando eu comecei a escrever fanfic e uma estudante da PUC me convidou pra uma iniciação científica lá. Foi o auge da minha ida ao metrô. Conversei com a moça pelo chat do site das fanfics e marcamos de nos encontrar pra conversar sobre a faculdade de letras. Na época eu ainda era colegial, mas já sabia que queria fazer esse curso. Ela me convidou para o lançamento de um livro no Flamengo. Falei com a minha mãe e ela deu uma ligeira surtada, dizendo que ia me levar, que podia ser um homem mal intencionado. Pois quando eu desci pela primeira vez na estação do Flamengo, lá estava a menina, também acompanhada da mãe. 

Em algum momento, zerei as estações de metrô sem perceber, mas me lembro de algumas das histórias. Bom demais.

terça-feira, 1 de julho de 2025

CLT com plano de saúde sem assistência psicológica

Trabalhar pra pagar um psicólogo e ter com quem conversar francamente por uma hora durante a semana. Horário marcado, tudo bonitinho, sem julgamentos. Ah, as delícias da vida adulta.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Castelos de papel

Numa entrevista de emprego, certa vez, chamei a atenção dos avaliadores porque quando me fizeram aquela pergunta original "Se você fosse um objeto, qual você seria?", respondi que seria um caderno. Nesse dia não pensei em como receberiam a minha loucura: eu só falei sem parar sobre como os cadernos sempre representaram um universo infinito de possibilidades pra mim. 

A memória veio como um flash. Eu me perguntei "Se houvesse o botão de controle parental na minha vida, quantas horas de escrita eu já teria?". Óbvio que tudo isso só veio a minha mente porque eu estou tentando escrever o trabalho do mestrado e também pensei "Se eu voltasse no tempo uns 10 e depois 12 anos, eu certamente estaria sentada no quarto ao lado lendo ou escrevendo"

terça-feira, 24 de junho de 2025

Palavra da moda, sentimento antigo

Na última semana reagi a uma novidade. Uma amiga, que está há longos anos num relacionamento, se percebeu atraída por outra pessoa. A cabeça dela foi longe, houve espaço para projeção de um futuro, uma ponderação sobre o que seria bom se aquele crush fosse pra frente. 

Soube do ocorrido e esperei que ela tomasse sozinha a decisão que seria justa consigo mesma, com o outro. Apontei minhas considerações: termine o seu relacionamento antes de fazer qualquer coisa. Não é justo que, por mais sem sal que esteja a sua relação, você faça isso com o outro. 

Esse casal já foi feliz um dia, já houve respeito, companheirismo, divisão de sonhos e de uma vida. Esse casal já teve muitas brigas, muitos desentendimentos, palavras duras e frustrações. Eu entendo quando as coisas precisam acabar, só não entendo qualquer justificativa que deem para trair. 

Nesse dia chorei bastante ao refletir sobre essa história. Não entendi a princípio porque eu chorava tanto, mas depois de algumas horas entendi que era o tal do gatilho. Esse mesmo que todo mundo tem dito "vai me dar gatilho". Escutei tanto essa expressão e tantas vezes que em algum momento ela se tornou apenas um bordão. Acho que o perigo é esse, de falar em momentos tão descontraídos sobre uma situação séria. 

O tema da traição, o "vou fazer todo o possível para ele nunca descobrir se for necessário" e o "não sei se cabem moralismos nessa situação" definitivamente ativaram algo no meu emocional. Sinceramente, amiga do cara ou não, continuo achando que ninguém merece passar por isso.