Éramos seis. Estávamos num lugar branco, com corredores, sem móveis. Era muito comercial, muito laboratorial, aquilo que virá depois do contemporâneo, o futuro depois do que achamos que seria o futurismo. Trabalhávamos apenas com as nossas mentes, o que pensávamos era transformado em dados e contribuía para a pesquisa científica. Na sala circular aconteciam as reuniões de debates mentais.
Estávamos tentando conceber algo grande, uma inteligência superior, a partir da nossa. Essa tarefa era extremamente difícil e cada vez que falhávamos, um de nós desaparecia e então outro surgia no lugar. Eu não sei o motivo, mas eu parecia ter mais medo de desaparecer que os outros. Quando isso acontecia, os pais, que eram mais velhos, sábios e estavam no comando, mandavam um jovem novo. Eles não eram nossos pais de verdade, mas os chamávamos assim. Eles dependiam de nós, eles formavam a equipe, esse era o trabalho deles; criar a cabeça humana era o nosso.
Nós, os seis, nos reunimos na sala circular novamente. No fim da tentativa, uma voz imponente, tomada de um ódio elegante, anunciou o fracasso. "O que vocês criaram é insuficiente e não se limita a mediocridade, beira ao terror e à vilania. Contemplem sua própria concepção de humanidade". Então, o que criamos juntos os seis surgiu como uma imagem tenebrosa no centro da sala branca. Uma cabeça cinza, de contornos bem definidos: crânio, testa, orelhas, queixo, maçãs do rosto e nariz. No entanto, no lugar dos olhos e boca três horrendas covas repuxadas para dentro, cujo fundo não se podia identificar. A visão bizarra do rosto disforme fez tremer todos nós, incluindo a mim, que não deixava de pensar que aquela escuridão profunda encarava diretamente o breu de nossas almas.
A cabeça se dissipou. Tomada pelo pavor, não vi África ser escolhido para a troca. Retornei aos testes individuais e notei um comportamento diferente no verme branco da linguagem. Todos os vermes que formavam a cabeça estavam dispostos numa bandeja estéril, perfeitamente alinhados, mas o da linguagem se mexia num ritmo diferente dos demais, agitado, querendo sair pela tangente. Se ele quer sair, então que saia. Matei-o, foi muito fácil. O verme estourou e dele saiu um líquido transparente, viscoso. Senti um choque repentino dentro da minha cabeça. "Por que estou há tanto tempo em silêncio? Eu posso falar."
Corri pelos corredores, procurando por ela. Ela me entenderia, ela conseguiria traduzir para os outros o significado de matar o verme da comunicação. Encontrei a cientista e falei baixo "Ásia, nós não podemos fazer o que os pais querem. Os pais vão matar todos nós quando concluirmos a inteligência." Mostrei o verme morto e ela entendeu instantaneamente. Olhou para mim com sofrimento, como quem se frustra com o erro de uma criança inteligente e amada, mas muito inocente: eu não precisava ter usado as palavras, afinal. Eu havia causado a sua substituição, ela seria a próxima a ser trocada pelos pais.
Os pais anunciaram a chegada da nova África. Ela era bela, mas menor que o anterior, tinha um corpo feminino como o meu e se parecia com o pai. Todos, à sua maneira, eram parecidos com os pais. Eram obedietes e subservientes a eles. Eu via claramente quem trocava, quem trazia, quem mandava, quem dava a luz a cada um de nós. Mas nenhum deles era igual a mim e, por isso, eu via a substituição de todos os meus irmãos sem ser trocada. Era o meu destino ser a mistura de todos eles e a única ciente de que aquele experimento não poderia continuar.
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