quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Lu

Vim visitar a minha mãe e, no caminho de casa, reparei numa moça que andava na calçada. Mesma altura, mesmo porte, mesmo rosto, mesmo tudo, era então uma menina que tinha estudado comigo no ensino fundamental. Não era estranho que ela estivesse fazendo aquele caminho, afinal, estávamos na rua da escola que também era a rua da casa da mãe dela. 

Mas ela tinha um semblante triste, cabisbaixo, braços cruzados, cabelo preso, os olhos perdidos. Mas o sinal abriu e o carro precisou andar. Eu tinha que ter falado com ela, será que ela lembraria de mim? E se ela tivesse me visto na rua, ela teria me reconhecido? Como ela me veria?

A vida mentirosa dos adultos

 Com o tempo, percebi que, quando se reconhecia em mim, minha tia era dominada pelo afeto, mas, se identificava algum traço do meu pai, desconfiava que eu faria com ela ou com as pessoas que ela amava o que o irmão lhe fizera no passado. De resto, o mesmo acontecia comigo. Eu a achava extraordinária quando me imaginava uma adulta combativa, e repugnante quando reconhecia nela os traços do meu pai. Aquela manhã, pensei de repente em alfo que me pareceu insuportável e ao mesmo tempo divertido: nem eu nem minha tia nem meu pai podíamos eliminar nossas raízes comuns e, portante, acabávamos amando e odiando, dependendo do meu caso, sempre nós mesmos.


E. Ferrante.