domingo, 21 de janeiro de 2024

Estrangeira de todos

O vandalismo na porta da UERJ me fez rir mais do que eu deveria. Eu sabia que era errado, que jamais faria algo assim, mas o sentimento de ver o nome da minha casa, num lugar em que eu ainda não pertencia, falou mais alto e eu ri sem parar por uns dez minutos. Depois disso eu não conseguia passar por aquele corredor sem olhar pra porta com carinho e ver que aquele vandalismo escancarado tinha um pedacinho de mim e, mesmo que isso não faça o menor sentido, esse foi um fator que me fez sentir pertencente à FFP a partir daquele dia.

Esses dias, no trabalho, peguei a demanda de uma fornecedora para avaliar e a primeira questão tinha um poema do Eucanaã Ferraz. Olha. Eu não sou grande conhecedora de poesia, nem sei avaliar o nível de fama dos poetas contemporâneos, mas algo me disse que essa fornecedora tinha que ter tido aula com ele na UFRJ pra chegar ao ponto de colocar um poema dele na demanda de elaboração. A questão estava bem ruim, tive que refazer e tirar o poema dele de lá, porque não servia para o propósito gramatical que estávamos buscando avaliar. Ainda assim, aquele pedacinho de Rio de Janeiro num trabalho que me transporta diariamente a Minas todos os dias me deixou muito feliz. 

Tenho estado assim ultimamente, procurando familiaridade nas coisas, me sentindo estrangeira nos lugares.


Ainda quero fazer uma camisa disso, apesar de saber que é vacilo.


O treino da dona de casa

 Antes de qualquer coisa eu não sou uma dona de casa. E assim como não vou conseguir me aposentar nunca, porque minha carteira de trabalho tem 237 contratos de menos de 12 meses e só agora eu consegui um emprego decente (eu ouvi um amém?), minha experiência com afazeres domésticos é podre. Eu não sei cozinhar nada além de brigadeiro, cookies, onigiri e miojo (e mesmo assim há quem diga que meu miojo é muito mole). 

Estava eu, esfregando o refratário que está de molho há três dias no limão quando me dei conta de que não estava conseguindo prestar atenção no dorama que coloco pra lavar louça (Papel de rainha, Netflix). Cara, que prato foi feito naquele pote de vidro? Mãe, não o faça NUNCA MAIS. E então começaram as epifanias: então será que é assim que as donas de casa malham e mantém a forma? Eu fiquei mais de trinta minutos tentando limpar aquele negócio e não saiu. O queijo estabeleceu um relacionamento sério, e muito sólido, com o vidro. Eles não querem se separar nunca mais. Até que isso é bonito.

 Desliguei o dorama, coloquei a água pra esquentar e decidi que ele vai ficar de molho por mais três dias.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Bobinha

Sabendo como eu sou, vou lembrar dessa história para o resto da vida. Espero conta-la pra Catarina a tempo dela não virar uma garota boba, como eu.

Paracetamol

 Tomara que essa dor no meu peito seja algo que o médico resolva com um remédio, porque se for amor eu não aguento mais. 

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Círculo vicioso

 Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:

– "Quem me dera que fosse aquela loura estrela,

Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"

Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

 
– "Pudesse eu copiar o transparente lume,

Que, da grega coluna à gótica janela,

Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"

Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

– "Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela

Claridade imortal, que toda a luz resume!"

Mas o sol, inclinando a rútila capela:

– "Pesa-me esta brilhante auréola de nume...

Enfara-me esta azul e desmedida umbela...

Porque não nasci eu um simples vaga-lume?"

ASSIS, M. Ocidentais. Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br>. 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Músicas que eu cantava errado achando que tava abafando

Música: As quatro estações, Sandy e Júnior

Como é: 
Na primavera, calmaria
Tranquilidade, uma quimera

Como eu cantava:
Na primavera calmaria
Tranquilidade, o mar quem dera

Música: Palpite, Vanessa Rangel

Como é:
E aí, o amor pode acontecerDe novo pra você, palpite

Como eu cantava: 
E aí, o amor pode acontecerDe novo pra você, comite (??????)

Música: Não me deixe só, Vanessa da Mata

Como é:
Não me deixe sóEu tenho medo do escuroEu tenho medo do inseguroDos fantasmas da minha voz

Como eu cantava:
Não me deixe só 
Eu tenho medo do escuro
Tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha vó

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Ela não viveu

 A conversa do bar diz

que se eu não fui pra balada na adolescência nem comi

cogumelo

eu não vivi.

Então fica a pergunta:

Como se chama a minha existência?